Autor: Mauricio da Silva de Lima
Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro
Graduação: Teoria da Dança







É com emoção que começo a escrever essas palavras.

Escrever, aqui, na dimensão mais conhecida desse verbo, talvez; no suporte mais ordinário, destinado, criado para esse fim; perecível, quase artesanal: o papel e a caneta.

Há, nesse exercício de escrever, um esforço que, você que me lê, talvez não veja, ou melhor, esforço que talvez você perceba, que extrapola as irregularidade da palavra escrita a mão e as rasuras de um pensamento que se constrói como quem dança, uma dança que produz rastros. Rastros que constroem caminhos e há que se aprender a ler esses rastros. Talvez.

No dia 30 de novembro de 2020, segunda-feira, dia de Exu, a Segunda Black, inicia sua quarta edição, nos oferecendo um presente: a oportunidade de ouvir, em uma masterclass de quase duas horas, a pesquisadora, professora e doutora Leda Maria Martins, importante pensadora do teatro e responsavél por construir, junto a tantas outras, novas epistemologias para o teatro negro brasileiro.

Dentre tantos aspectos que poderia trazer, abordar, a partir da masterclass de Leda, gostaria de destacar a relação da memória como gesto, como ação necessária para o processo de descolonização da história, do pensamento.

Há uma experiência temporal nesse momento de pandemia onde re-inventamos a presença, dando contornos a essa falta, redimensionando o tempo e o espaço.

Esse redimensionar como ação de construir proximidades e distâncias, convite ao deslocamento de si ao encontro do outro.

Leda em sua fala faz uma arqueologia do teatro negro brasileiro, através da história do Bando de Teatro Olodum, que completa 30 anos de existência e é um dos homenageados dessa edição da Segunda Black.

É a partir das lembranças de Leda do Bando que se constrói sua fala. Uma arqueologia que se dá ao vivo, num processo de escavação de si para encontrar o outro – o outro não em oposição à, mas em diferença.

Leda ao acessar memórias e arquivos, documentos históricos, ao evocar tantos nomes importantes para a construção do teatro negro no Brasil, lança sombras sobre a ‘história’ e nos convida a entrar na escuridão, no negrume; e, aos poucos, quase já não a vemos com os olhos, mas com outros sentidos, com os ouvidos. Uma imagem que não se apreende mas se constrói.

Ao evocar o Bando de Teatro Olodum, se fazem presentes não só os indivíduos, como também seus territórios – geográficos, simbólicos, afetivos.

Yhuri Cruz, artista visual e escritor carioca, em um encontro que fizemos em um outro projeto, fala sobre o corpo negro como uma máquina do tempo. Um corpo capaz de transitar entre o passado e o futuro, que resgata, recria, imagina sua ancestralidade, uma ancestralidade roubada, sequestrada. Ao resgatar esse passado e escrevê-lo no presente, anuncia um futuro.

Leda compartilha e nos convida a pensar a partir do que ela chama de corpo-tela, corpo-imagem. Segundo Leda o corpo-tela é:

‘um corpo-imagem, imantado por um acervo de saberes artísticos advindos de matrizes africanas e de nossas próprias africanias que ali também se fermentam. Uma corporeidade dialógica, relacional, que prima por sofisticadas e complexas referências na elaboração da mis-en-scene. A corporeidade como episteme fecunda a cena atual, expandindo os escopos do corpo, como produção e inscrição de conhecimento, de memória, de afetos, de ações…’

Ao trazer essa perspectiva do corpo-tela, Leda me provoca e aponta uma peça para a construção do que eu venho perseguindo como corpo-museu.

Ao testemunhar o tempo através de uma arqueologia pessoal da memória, detonada pela trajetória do Bando de Teatro Olodum, o corpo-tela de Leda se faz museu. Um corpo que se aciona museu ao testemunhar e compartilhar suas memórias. Um corpo-museu presente, vivo. Que diferente da instituição museu, ou de uma arqueologia que lida com objetos perecíveis, o corpo-museu lida com outro tipo de

matéria; uma matéria não-perecível, uma material virtual – como qualidade daquilo que existe em potência – uma materialidade que não se agarra, mas que se transmite, que se contagia. Uma arqueologia do contágio, que é acionada, pela fala, pela escuta, pelo olhar; na materialidade da palavra, do movimento, dos sonhos, da imaginação, criando rastros que se escrevem no tempo.

A masterclass pra mim se torna um ato de memória, uma performance do tempo, que se materializa e se faz ao vivo através do corpo-fala de Leda. Essa voz me atravessa e me convida a dançar através de tantos buracos abertos – experiência coreográfica – uma coreografia da memória. Então o teatro dança como Exu ao redor do buraco. Me vejo diante de todo aquele negrume – me sinto vingado ao ouvir a voz de Leda nos dizendo o que me foi negado em toda minha formação como ator em uma escola pública de teatro – nós temos memória, nós escrevemos histórias, existimos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *