Autor: Matheus Neves da Silva
Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro
Mestrado em Artes da Cena








NÃO ERA MEIA NOITE, ERA QUASE MEIO DIA, uma ação sobre o imprevisível

Exu quem guia a comunicação e vai na frente iniciando o movimento que vira ensaio e desejo de compartilhar

Duas artistas, paradas frente a frente, caminhando para o encontro. Se refletem. E aí começam os ruídos, sons, ruídos. O primeiro toque das artistas em cena é pela cabeça, mais precisamente pela testa. Dois corpos dentro de um círculo vermelho, os vestidos brancos se movimentam, o desejo de se relacionar e de se compenetrar se tornam uma aliança contra a determinabilidade e a favor da imprevisibilidade. É nesse momento que elas chegam, avisando estarem acompanhadas. As bruxas chegam.

Essa ação feita por Castiel Vitorino Brasileiro & Jade Maria Zimbra faz parte de uma longa relação de amor entre as artistas. Como relatado por Castiel durante nossa interface crítica, a ação descende de um projeto chamado espiritualidade travesti, a ação anterior se chamou “uma deusa, uma louca, uma feiticeira”. “Somos orientadas e temos exu e as pombagiras como bússola”, essa experiência de vida que busca o imprevisível encontra nas bruxas uma mão confiável para segurar o instrumento que vai guiar o movimento. E o movimento que surge dessa orientação não se prevê, pois não está coreografado.

Os procedimentos para ação se baseiam no jogo onde o canto de Jade deslocam o corpo de Castiel e os deslocamentos de Castiel movimentam o corpo, os pontos e canções cantadas por Jade. Temos a simplicidade de um tablado vazio, a semelhança entre figurinos (um vestido branco) e um círculo preenchido por uma luz vermelha. A ação é afetada e transformada para nós pela mediação das câmeras e a seleção dos cortes, registrados a partir de três câmeras.

PREPARAÇÃO CORPORAL

Em relação a corporeidade cênica Castiel relata a yoga, o funk e a capoeira de angola como componentes desta, também os movimentos de incorporação de exus e pombagiras, que Castiel salienta nunca passarem pelo fingimento. Ainda notamos que a voz se engaja fortemente na corporalidade cênica, pois além da vibração e da propagação sonora, a voz de Jade direciona a qualidade e extensão dos deslocamentos do corpo de Castiel.

UMA EXPERIÊNCIA DE CURA

Um ponto traumático assombra e dificulta a construção de uma nova forma de perceber, sentir, analisar e expressar. Afirmar uma presença travesti em busca de imprevisibilidade é uma experiência de cura, porque nossa sociedade vem tentando determinar violentamente tais presenças. Na cena, essa presença se manifesta numa ventania

“Quero ventar aos quatro cantos sendo brisa ou vendaval Te soprar um apito insano ou início de um portal,
Para ver se você nota Travesti chama vitória Lava quente escorrendo Pela boca uma voz
Conduzindo as etapas dessa nova gestação  Quem caminha nessa estrada não teme bifurcação Sendo a roda da fortuna
O carro na contra mão
Vendo possibilidade na terra seca E no vulcão
Nessa vida eu vim de novo Travesti é imortal”

Só através de experiencias de cura é possível caminhar para um programa político-cultural de liberdade, que seria o momento em que o trauma estaria curado. Por enquanto, a arte preta está produzindo pequenas experiências de liberdade, ou seja, experiências de cura. NÃO ERA MEIA NOITE, ERA QUASE MEIO DIA é uma delas.

MIMO BAMBU EM O CATADOR DE RISOS, um instrumento de educação popular

De dentro do teatro um trabalhador da cultura se prepara pede proteção aos ancestrais, pois a rua é campo de batalha. Agora temos ainda um combatente invisível. O catador de risos chega, duplamente mascarado.

Mimo Bambu em o catador de risos é um trabalho feito por Rodrigo Negão onde o palhaço Mimo Bambu sai pela praça de Belo Horizonte, propondo jogos interativos com as pessoas que estão passando e trabalhando. Mimo chega com um apito e traz a pessoa para o jogo dele, nesse momento se ri, se diverte, se imita, se relaciona. As relações se estabelecem sem fala e toque, o curioso é que ele convida pessoas sem máscara para o jogo e acaba fazendo elas saírem dali mascaradas.

A presença de artistas da comicidade na rua ativa uma outra relação de troca, nesse caso em específico essa troca se dá por meio de brincadeiras. Essa rua é a mesma onde trabalhadores estão sendo submetidos a uma violência diária, incluindo crianças pretas. Essa pequena vivência é uma experiência de cura, porque um palhaço pode encontrar uma criança ou adulto – com sua criança adormecida – e despertar o riso ainda é um grande remédio. No entanto, não podemos esquecer da outra frase do riso: Rir de tudo é desespero! Então bota essa máscara porque isso não tem graça nenhuma.

É uma experiência de cura também porque ele distribui máscaras na pandemia para trabalhadores na rua, e sabemos que a população negra é maioria dentro dos que permanecem sendo obrigados a trabalhar presencialmente e nesses espaços. Mas nós temos assistido o projeto de desinformação e, de violência que geram essa forma de se comportar dos trabalhadores perante a situação atual. Mesmo assim Mimo Bambu é bem recebido pela maioria das pessoas abordadas, e acredito que parte delas podem refletir sobre um novo hábito através de uma experiência como essa. Por isso, considero importante que artistas que estejam realizando seus trabalhos na rua levem em consideração essa potência educativa da manifestação artística e associem dentro da sua forma de trabalho os novos gestos desse momento, pois agora esses gestos não só curam como podem literalmente salvar.

Imagina se você chega e manda uma pessoa colocar uma máscara no meio da rua? Acredito que algumas pessoas poderiam te ouvir, mas a maioria te mandaria cuidar da sua vida, afinal todo mundo já tem a informação sobre a importância o uso da máscara, mas o palhaço através do jogo e do riso tem um poder. Você já deve ter ouvido falar do Bobo da corte, as coisas que ele fazia jamais poderiam ser feitas por outros, pois poderiam resultar até em morte. Então aproveitando esse lugar Mimo Bambu faz “um rir que não deixa de ser uma cobrança, uma chamada na responsa” como disse Rodrigo Negão em nossa interface critica.

LIGAÇÕES ANCESTRAIS – UM PALHAÇO NA REPÚBLICA

A 2ª Black está homenageando Benjamin de Oliveira nessa edição e, por isso aproveito a presença de um palhaço para falar de outro palhaço:

“E tive de fazer acrobacias para provar que eu não era fugido e que era de ‘circo’ […]” (Abreu, 1963)

“Filho de Malaquias Chaves e de Leandra de Jesus, Benjamim de Oliveira nasceu, segundo o registro de seu batizado, em 11 de junho de 1870, na fazenda dos Guardas, na atual cidade de Pará de Minas. Conta-se que a sua mãe tinha sido uma escrava de “estimação”, por isso teve todos os filhos alforriados ao nascer. Do pai não guardava boas lembranças, pois era um capataz e considerado um homem terrível, que lhe batia diariamente.

Com uma infância difícil, aos doze anos já tinha exercido diversas funções: “madrinha de tropa”, carreiro, candeeiro, guarda-freio e ainda vendia bolo nas portas dos circos que passavam pelo Arraial. O primeiro contato com a vida circense, aliás, foi através das trupes que chegavam à sua vila.

Ainda muito jovem Benjamim decidiu fugir com o circo Sotero, que visitava a sua cidade. Neste, aprendeu a fazer acrobacias e a arte do trapézio. Também neste circo benjamim aprende que o trabalho no circo vai muito além do espetáculo. O rapaz enfrentava uma rotina árdua de treinamento e de tarefas domésticas. É no circo Sotero que Benjamim conhece seu mestre Severino de Oliveira, cujo sobrenome pode ter sido adotado pelo rapaz após um novo registro

Benjamin de Oliveira viveu trabalhando com arte e circulou até mesmo nas instituições oficiais da república, mesmo assim, ao solicitar subvenção para continuar trabalhando obteve a seguinte resposta:

“sua atividade não se enquadra nos programas educativos através do teatro e da música desenvolvidos pelo Ministério. O “teatro do requerente” não é considerado como um válido “instrumento de educação popular”. O requerimento de Benjamim de Oliveira recebe mais uma consideração e o pedido é, finalmente, negado com a assinatura do então ministro Carlos Drummond de Andrade.” ¹

¹ Marques, D. (2006). O palhaço negro que dançou achula para o Marechal de Ferro. Sala Preta, 6, 55-63.

Estamos falando de alguém que foi um palhaço e que foi também desde criança um trabalhador pelas ruas. Seja vendendo coisas, seja fazendo arte, seja distribuindo objetos, assim como Mimo Bambu dá máscaras para os participantes. Essas conexões nos ligam a nossos ancestrais, e Benjamin é mais um fundamento para arte preta e para os coletivos que queiram produzir experiências de cura e de luta através do prazer do riso. MIMO BAMBU EM O CATADOR DE RISOS contribui com a saúde negra e com a educação popular.

ALICERCE, aquilo que vem primeiro

Alicerce começa no tablado, um foco de luz e Hiago Ruan, o solista, no meio. Cercado por plantas, cestos de palha, um pano bege no chão, e se vê também um tecido branco que está pendurado e parece voar sobre o cenário. Um discurso começa, não sai da boca do solista, é parte da trilha de Tiago Farias dos Santos e Filipe Mimoso, trilha que é também dramaturgia e discurso. Hiago dança essa trilha com um figurino composto por uma calça com tons de verde e branco, um colar, é uma marca branca desenhando suas costas. Dança com as folhas, dança por cima do pano, dança e aguça sua percepção. Como disse Hiago durante a interface crítica “Alicerce é pra abrir nossos olhos, aguçar nosso sentido, perceber natureza, conversar e um estado de aguçar essa descoberta”. Assim podemos ver no palco a busca do dançarino por esse perceber.

CORTES

A mediação das mídias digitais nos permite poder ver o artista dançando, sentido e percebendo não só no palco, mas também na cachoeira, na terra, no mato. Hiago dançando na natureza, os cortes e as repetições de imagens são recursos usados. O trabalho se torna também sobre o corte, pois ele constitui uma forma específica para a nossa experiência, nos permitindo sair de uma paisagem a outra, ver o artista usando um figurino depois outro, entrando na água depois estando seco, tudo isso no gesto instantâneo do corte. Pelo corte podemos parar próximo ao olho, ou a testa, ou a um cavalo. E a escolha desses cortes e dessas visualidades são frutos do trabalho de Diego Alcantar (direção artística, roteiro e indumentária) e Marvin Pereira (fotografia e edição). É através do corte que essa vivência que durou uma tarde, um dia e várias noites de processo se aglutinam na experiência que vivemos como espectadores.

QUADROS: CORPO-NATUREZA

Um homem dança em frente ao rio, do lado de uma árvore sem folhas. Um outro corpo coberto por um pano está presente também.

A dança debaixo dos panos Hiago diz construir como uma escuta do vento, transformando o corpo em corpo-natureza. O corpo dançando na natureza se torna corpo-natureza através da percepção de ser parte dela, uma semente. Esse corpo-natureza, ao escolher perceber o aqui e agora, acaba abandonando a coreografia como processo de construção: ”em um desses dias começou a trovejar, esses trovões atravessam a minha dança, o meu corpo, coisa que coreografia nenhuma iria permitir.”

CORPO E PROCEDIMENTO

A maioria do trabalho acontece no improviso, na reação espontânea. Para tal improviso uma das técnicas destacada por Hiago é a Silvestre. Seu relato permite também que possamos perceber a forma de trabalho, como dançarinos e atores tem realizado não só apresentações, mas também ensaios através de plataformas digitais, fato que sem dúvidas modifica o processo e os seus possíveis “resultados”. “Esses mestres que traziam energia mesmo pela câmera, eu renovo construo e penso possibilidade, eu consigo acreditar na dança, no corpo que se conecta através dessas grandes mestras que passam essa ciência daqui da Bahia. Então salve Rosangela Silvestre e todas outras que dialogam com isso”

“Selecionamos esse conjunto pra formar essa obra, mas o atravessamento de Alicerce tá pra minha vida, pra meu existir, pra minha ciência de vida. Essa conexão com as folhas, com a fotossíntese, a clorofila que a gente bebe”. Alicerce conecta a natureza, que nos nutre, Alicerce nos nutre. Alicerce é o que vem primeiro. Exu vem primeiro e nos conecta a ele.

Abrindo os caminhos

LAROYÉ

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