Autor: Julio Angelo Gomes
Instituição: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Graduação: Direção Teatral






Recobro meus sentidos primeiro pela poesia e deliro que vivo

A quarta edição do festival Segunda Black, com abertura no dia 30 de novembro de 2020, segunda-feira – Laroiê, Exu! – e conclusão no dia 8 de novembro, teve entre suas missões, contribuir com algumas das novas discussões e desafios que um ano incomum como este gerou para as práticas teatrais. Até este momento, sabemos o quanto a pandemia desestrutura toda a cadeia de produção das artes cênicas e coincidentemente, é a mesma que mais afeta e acomete pessoas negras e periféricas.

Não há nenhuma ingenuidade em admitir que antes mesmo de se cogitar uma falácia como o “Novo Normal”, as portas dos espaços teatrais tidos como oficiais mantinham-se fechadas para artistas negres, salve algumas exceções, principalmente, quando voluntariamente reduzem o “negro” à tema.

Para além dos algoritmos racistas, as frestas digitais podem e devem contribuir para darmos sequência – admitindo outras problemáticas, como a desigualdade de acesso à  internet- à ativa ocupação dos espaços historicamente negados a essa categoria.

A história do Teatro Negro se faz no agora mesmo! E agora mesmo, instaurada a desordem no estatuto teatral, mantemos nossa ânsia por subverter “panelinhas” e por promover aquilombamentos, onde a fome não leva ao desencanto e sim, ao estado pleno de espírito.

O corpo negro diaspórico, cingido na pluridiversidade da encruzilhada, tem fome. Fome que espelha as suas muitas bocas, detalhes intrínsecos de seu autoretrato de matizes invisíveis. Estas se desvelam pouco a pouco, ao passo de fazer o sujeito se deliciar com a sua própria retomada de consciência. Uma ação que convoca a invenção e a reinvenção em um jogo teatral poético, que se dá na recusa do monologismo da herança colonial. Aqui, a fartura de desejos é anunciada e os espaços ocupados por esses corpos em expansão passam a ser redimensionados também pela ácida voz regurgitada dessas reexistências.

No segundo dia de festival, dia 01 de dezembro, terça-feira, às 19h30, tendo como tema a “Poesia Híbrida na Cena”, tivemos a satisfação de presenciar e celebrar este “corpo cênico negre” personificado na programação, transfigurado nas três obras apresentadas: “Pretofagia – O Plot” (RJ), de Yhuri Cruz, “O preto bonito está cagando pra você, Madame!”, de Médrick Varieux (RJ) e “Sobre Pesos e Balanças”, de Carolina Aza (SP).

Mesmo reconhecendo suas disparidades cênicas e dramatúrgicas, acredito que as três produções se confluam num esforço coletivo, assentado no Teatro Negro Contemporâneo, para expor à superfície uma miríade de possibilidades do que pode vir a ser uma pessoa negra na sociedade brasileira hoje. Este senso de coletividade ascende uma forte convocação dialética aos espectadores, que, desde o primeiro momento, têm sua suposta passividade desestabilizada, mesmo sem as provocativas nuances de temperatura do teatro presencial.

Não é à toa que nos primeiros minutos de “Pretofagia – O Plot”, somos levados a visualizar a plateia do teatro Oi Futuro, ocupada por poucos membros da equipe do festival. A claquete inicia a gravação e o ângulo que observamos é um registro da impossibilidade da presença física do público, mas também o início de uma memória encarnada e produzida pelos seus próprios realizadores, representados pelos dois atores no palco. A câmera, a edição e a trilha sonora (que num primeiro momento ajusta a frequência própria da cena), auxiliam este convite formal para vermos o que este corpo cênico negre deseja que vejamos. Uma clara desconfiguração do que se entende como espaço tradicional de cena. Um despir da estável posição e relação de palco e plateia da estrutura burguesa do teatro. Este recurso pode parecer sutil, e é, mas já garante a ideia de movimento que a cena, e por que não, o festival em sua amplitude, sugerem. Não é mera coincidência que o movimento parta, portanto, do desequilíbrio do olhar de quem vê o outro.

Ao precipitar o precipício, ação que intitula a sequência “inicial” desta coreografia do desejo, somos lançados a uma espécie de sonho e pesadelo, que se constituem pelo despertar taciturno de nossas múltiplas vozes. Vozes enunciadas por um discurso em espiral, provocado pelo plano físico e também pelos pluriversos, muitos ainda longe de nossa compreensão. Desconfio que Yhuri Cruz, o artista cavalo desta exposição-cena, esteve muito bem acompanhado ao longo de sua criação, seja nas palavras certas sopradas ao pé do ouvido, seja nos passos vindos de longe, sacramentados na ancestralidade do tempo esfera.

Este coro que se presentifica, profere palavras feitiços, dando caráteres curativos à Pretofagia. Um ritual cênico que promove a oferta de um ebó epistemológico, pautado numa outra perspectiva de pedagogia decolonial. Os corpos em cena se dão como a representação física e subjetiva desse pensamento e prática: a identidade negra diaspórica mergulhada num palco de signos ambivalentes, que se dá pela sua própria (re)construção.

Um corpo negro não é só um corpo. É transe em trânsito. Se o Brasil é um sonho de um xamã, como ficciona/fricciona Grace Passô no curta-metragem República (2020), essa ilusão semiótica também se desdobra em desarranjados berros afrosurreais, em que o preto e a preta que se alimentam de si se veem como parte, pedaços suculentos, encharcados de sumo e néctar.

O mantra “Vida, estou te comendo” é uma exegese da Pretofagia, que também se dá, dentro da programação deste dia de festival, como abertura de caminhos para o que estaria por vir. A essa altura, o público já poderia descortinar a sua própria insaciedade.

“Enquanto o negro estiver em casa não precisará, salvo por ocasião de pequenas lutas intestinas, confirmar seu ser diante de um outro” (FANON. 2008, pág. 103). Neste fragmento ainda factual, Fanon acaba por nos localizar o que nós, pessoas negras, estamos sujeitas a enfrentar ao nos situarmos fora de nosso âmbito particular. Neste raciocínio, chegamos à conclusão de que artistas negres em cena precisam confirmar constantemente, num jogo teatral poético, seu ser diante de um outro, dispostos em uma plateia.

Como bem argumenta o ator e dramaturgo Jhonny Salaberg, “Escrever Teatro Negro é escrever justiça”(SALABERG. 2018, pág. 53), e essa ação perpassa por infindáveis escolhas dialógicas e estéticas, em que não há de haver caráter hierárquico entre elas. Assim, a legitimação dessa reivindicação de existir diante de um outro pode ser entendida no próprio discurso do sujeito em cena.

É justamente em Fanon que o ator Médrick Varieux desenvolve a sua voz afirmativa na cena “O preto bonito está cagando para você, Madame!”. A palestra-performance não se limita a interpretações simplistas desse movimento induzido pelo desejo de reivindicar. Aqui, essa escolha se dá no próprio universo de singularidades em que a experiência cênica se

desenvolve. Essa experiência vivida do negro parte de sua própria voz. Ela ainda é aglutinada ao trauma colonial, mas não só, pois se percebe além dessa violenta demarcação.

Tal constatação é dolorosa, mas, ainda assim, submerge em um rio profundo de possíveis outros sentidos. Um rio feito de lágrimas. Entre seguir extrapolando seu corpo pelo choro e nadar neste emaranhado mole, a figura desse homem negro se banha com a sua maleável “negritude”, que veementemente não deseja ser torre, nem catedral.

Médrick é certeiro em apostar na simplicidade de dispositivos cênicos em sua performance, fato que contribui com a condução de seu discurso, que se transveste em uma flecha, a qual já foi conduzida por muitos e muitas anteriormente, incluindo Fanon e Césaire. Ela não se projeta em linha reta, mas numa circularidade de contrações, gestando novas formas de existir. Sabemos quem a disparou, pois o esforço aqui é também o do não esquecimento.

O corpo negro tem mais idade do que aparenta ter, porque coberto pela máscara da negrura, há sempre mais um corpo. Até mesmo essa máscara que, por vezes, o defende e, por vezes, o condena, está em processo de feitura e desfeitura. Um trançado que destrói para construir e destruir novamente. Nada mais do que o processo de escrevivência, feito pelo próprio punho, onde a fabulação de si é parte estruturante da revitalização do ser.

Como o desejo de reencontro presente na obra de Rosana Paulino – elaborado pelos fios da memória nos entrelugares da experiência negra da diáspora – Carolina Aza, em seu solo teatral “Sobre Pesos e Balanças”, também nos envolve em uma teia narrativa imagética magnética, cheia de cores e aromas, podres e frescos. A atriz, com a propriedade de uma transeunte de dois mundos, opera uma viagem fantástica em poucos minutos de duração e não por isso, menos intensa.

Pelo o que denuncia o título da obra, essa viagem também se dá pelo equilíbrio de cada palavra em seu discurso. Oras dilacerantes, oras serenas, as palavras acabam fazendo parte de um tempo dissonante do real, traduzido, talvez, como o tempo de puxar o fôlego, onde retomamos, coletivamente, o ar ao nosso redor. Por isso, Aza nos apresenta o espelho de Oxum, que de narcísico não tem nada. O corpo da atriz só ganha formas, contornos, órgãos e

voz por reconhecer que nunca esteve sozinha. Como deixa claro em uma das suas falas mais vibrantes, “Meu corpo só encontra descanso hoje, porque teve em quem repousar”.

A beleza do texto, e da cena como um todo, se apresenta também como um reflexo da dor, porém, não como antítese, inimigas, mas como confidentes. São elas movimentos confluentes de uma mesma cabaça originária, assim como a relação de vida e morte, encantamento e desencantamento: forças que não nascem no aprisionamento, mas concebidas em caminhos de liberdade.

Quando me percebi ao fim do dia de apresentações, concluído por um bate-papo inspirador entre cada artista, ainda contando com a provocadora colaboração da interface crítica de Guilherme Diniz, pude me reconectar com o que eu tenho de mais humano: minhas dúvidas. Dessa forma, quero acrescentar aqui que foi extremamente gratificante vivenciar uma noite especial como essa, em que jovens artistas negres propuseram subjetivamente que talvez o “fim do mundo” não seja uma notícia tão ruim assim. Ah, não falo sobre distopias, nem utopias! Falo de uma crível intervenção decolonial para a criação de outros mundos possíveis.

O desejo de recobrar os sentidos primeiro pela poesia e delirar que se está vivo é aceitar a morte como companheira e potência criativa. Claro, se deliro que estou vivo, é porque desconfio que estou morto, e ainda, que me querem morto. Nesse sentido, a “morte matada” me parece ser a lógica natural. Acredito que lidar com os espectros da morte é também poder habitar as vias de emancipação e transgressão de imagens indesejadas e fixas de nós mesmos.

A necropoética, termo plasmado pelo crítico de cinema Juliano Gomes, se faz no flerte com a morte, enquanto se samba no fio da navalha e na corda bamba da vida. Mais do que nunca, nesse contexto, entrar em cena é aceitar a morte.

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