Autor: Ariane Maria Lopes dos Santos
Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais
Graduação: Teatro







O corpo-memória nas artes da cena negra

Traço então a nossa roda gira-gira
em que os de ontem, os de hoje, e os de amanhã se reconhecem
nos pedaços uns dos outros.
Inteiros.
(Conceição Evaristo)

Começo essa escrita dizendo da felicidade e responsabilidade em escrever sobre esses três trabalhos. Partilho o meu sentimento ao recebê-los de maneira online, pelo distanciamento gerado pela pandemia e por compartilhar a partir de outra instância de presença, se não, a física. Os trabalhos apresentados partem de experiências, enquanto mulheres negras, periféricas, das regiões do Rio de Janeiro e Bahia, nos guiando por caminhos distintos e carregando uma multiplicidade no âmbito artístico, estético e político. As artes da cena negra, aqui, apresentam o encontro entre música, teatro, dança e audiovisual. O corpo que tece essa arte negra encontra espaço para a reinvenção e reelaboração dos traços de violência e apresentam, como sinaliza a professora e pesquisadora Nilma Lino Gomes, a construção de processos emancipatórios e libertadores, que apesar de nos reconhecermos como sujeitas portadoras de experiências individuais e subjetivas, “[…] somos sujeitos históricos e corpóreos no mundo. A identidade se constrói de forma coletiva, por mais que se anuncie individual” (GOMES, 2017, p. 94).

Os três trabalhos apresentam uma possibilidade de ressignificar memórias como matéria prima para o processo de criação. Esses corpos dançam memórias, vivências e histórias que, compartilhadas no cotidiano, passam pelos corpos dessas mulheres em cena, no momento de inscrição do corpo dançante e tecem um trajeto de cura, revolução e resistência, entendendo que, para que essa inscrição ocorra, outros trajetos e caminhos já foram inscritos, o trabalho aqui é o de continuidade. O destaque nesse momento se evidencia pela presença artística, estética e política de mulheres negras. Para os três seguintes trabalhos as referências condutoras partem da experiência matriarcal, que assume liderança nos espaços de construção de identidades dessas artistas, o saber se constrói na roda do jongo, no trançar o cabelo e no ritual de saudação, a força de elementos e sua possibilidade de ressignificar imagens. O corpo, mais uma vez, reivindica, questiona e age em resistência, saber, potência, presença e voz.

“minha cor preferida é laranja…”

Mãe Adriana, vó Judith, pai Alcir, tia Alzira, prima Vanessa. Corpos lembrados e reverenciados na cena Amor Preta de Adrielle Vieira, com direção de Aryelle Christiane. No drible, nos passos do samba de roda, na batida percussiva do funk, na ginga do corpo que repete e reelabora os passos marcados pelas palavras de Adrielle, conduzindo a narrativa e abrindo caminho para os nomes das ancestrais, matriarcas da família. Em cena, uma bola e uma panela que mais a frente se transforma em objeto percussivo. Entre as histórias que tecem a narrativa, a atriz resolve contar e cantar amores. Amores pelo pai que inspira a jogar futebol, pela dança, pelo samba, soltar pipa, o amor pela moda, por essas mulheres citadas e por tantas outras que contribuem para a formação de sua identidade. Apresenta-nos seu trajeto de casa para a universidade, num movimento ritmado pela narração de um jogo de futebol. Os nomes das jogadoras da seleção feminina brasileira Marta e Formiga aparecem como personagens, compondo a narrativa. As memórias de infância relembram o momento tão vivenciado por muitas crianças negras, o trançar os cabelos. Ali, no momento de trançar os cabelos, mães, avós, tias e outras mulheres, também contam suas histórias e estabelecem um lugar de afeto, de encontro. As imagens projetadas na tela ao fundo estampam o rosto das vozes-mulheres, narradas também por Conceição Evaristo (2017), e costuram o movimento do presente, passado e futuro. Então, ela canta, canta amor, afeto e também canta dor.

“Maria, sonha um dia ser artista…”

Super Maria aborda pela performance músico-teatral o cotidiano das mulheres Marias presentes nas ruas e becos do Brasil, ironizando através das letras de suas músicas a sobrecarga física, emocional e psicológica, imposta aos corpos de mulheres negras. No momento inicial, as vozes das atrizes ganham vibração e constroem o espaço vivido por essas mulheres, trazidas por imagens das ladeiras, trouxas de roupas, cuidado com os filhos e outros elementos que remontam esse cotidiano. Em cena, cinco mulheres negras, amparadas por instrumentos musicais, ervas, um varal

estendido, que ao cortar a cena, recebe camisas com imagens de outras mulheres Marias. A letra composta pela musicalidade do jongo, evidencia a presença matrigestora, que nutre e gera potência dentro desses espaços. Entre uma sonoridade e outra, a performance traça vivências presentes no cotidiano dessas mulheres, atravessadas pela violência policial e o extermínio da população negra, que destroem e violentam os lares de mais da metade da população brasileira. O genocídio se apresentando como traço ainda determinante na vida de muitos jovens negros e periféricos, as palavras de ordem encontram seus corpos e determinam em questões de segundos o sofrimento de uma mãe, de uma tia, de uma avó, de uma família. Mais uma vez o corpo denuncia, pede justiça e mostra que esse mesmo corpo, remonta a séculos e jamais esquece o trauma e a dor. A dor que também se reinventa. Novamente amparada pelas escutas ativas, a presença e ensinamento das mais velhas, como uma grande Baobá, guardiã de saberes e um conhecimento ancestral, cura, lava e renasce em vida, banhada pelo encontro da água e da erva.

“minhas rosas negras, flores que perfumam meu andar…”

Em Rosas Negras sentimos mais uma vez, a vibração das imagens. Remeto-me à fala de Leda Martins, ao abrir brilhantemente essa edição da Segunda Black, em que estabelece imagens como formas pensantes, um corpo-imagem, onde os mais complexos saberes são instituídos e disseminados. Ecoa da voz de Fabíola Nansurê as vozes-mulheres e a lembrança Africana, como útero do mundo. De seus olhos saem a fervura, irradiando calor e movimentando a existência, como enfatiza. E novamente as imagens de mulheres negras ganham espaço no trabalho e se constituem em presença, as palavras estampadas na pele, preenche a fala da atriz e conduz a narrativa. Também ganha destaque na performance, os traumas do percurso escolar e o despreparo ao debater processos encarados por esses corpos. E mais uma vez a relação com o cabelo toma espaço e reconstrói imagens ainda da infância, que nossos corpos sofrem pelas inúmeras estratégias de branqueamento, o cabelo aqui, é somente mais uma. E o corpo, mais uma vez, dança memórias. A personagem Tandara se faz presença e expõe o momento tão vivenciado por mulheres negras, a transição capilar. Nesse instante nos vemos mais uma vez através da voz da personagem. Soltar os fios, reencontrar-se com as raízes e passar seus dedos nos fios de cabelos crespos. Ao olhar sua imagem no espelho, se reconhece e reencontra com todas as Rosas Negras. Então, saúda, agradece e reverencia, em todos os ambientes que se fazem presença, num rito de finalização, as Rosas, as Marias e as mães ancestrais. E dança.

Há a possibilidade de contar, falar e dizer de tudo. As que abriram nossos caminhos, as que estão por vir. Eu agradeço!

Referências

EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017. 124p.

GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

NJERI, Aza. Vamos falar sobre Mulherismo Africana? Alma Preta, 2020. Disponível em: https://www.almapreta.com/editorias/o-quilombo/vamos-falar-sobre-mulherismo- africana. Acesso em: 03 dez. 2020.

MARTINS, Leda Maria. Masterclass Tema: Memória. (2020). Acessado em: https://www.facebook.com/asegundablack/videos/818235132085741.

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