Autora: Nayara Fernandes da Silva Leite
Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais
Graduação: Teatro / Licenciatura








Meu território, o lugar de onde falo

“A nossa escrevivência não pode ser lida
como histórias para “ninar os da casa
grande” e sim para incomodá-los em seus
sonos injustos”.
(Conceição Evaristo)

Pertencendo a uma filosofia em que as palavras possuem poder e emanam energias, principalmente quando são referenciadas pela memória de grandes mulheres pretas, peço licença a todas as minhas mais velhas, que me nutrem diariamente para que eu consiga tecer reflexões a partir do que foi me ensinado.

Ao ter contato com os trabalhos: Memórias de Uma Maré Cheia e Becos de Veias, foram despertadas uma série de memórias, assim como propõe a temática da curadoria: Meu território, o lugar de onde eu falo, sabiamente escolhido para compor o 4° dia, da 4° Edição do Festival Segunda Black, que homenageia os 150 anos do nascimento de Benjamim de Oliveira e o 30° aniversário do Bando de Teatro Olodum.

Dizer que um território te pertence, colocando-se como cria, é assumir que uma localidade compõe a sua identidade. Ao nascer plantamos raízes em nossa terra, assim como o nosso cordão umbilical é enterrado pelas nossas mais velhas, raízes que brotam quando praticamos o ato de compreender a nossa história e florescem espalhando novas sementes, desse modo, os trabalhos escolhidos pela curadoria estão florescendo, de forma virtual, para as diversas localidades do Brasil.

O lugar de fala para os trabalhos apresentados é um lugar que busca contrapor uma lógica civilizatória colonial, que nos impõe somente a sua vertente da história, em contraponto a isso, os trabalhos praticam a pluriversalidade, falando de si e de sua comunidade a partir de seu próprio olhar, através de suas escrevivências, tecendo em suas memórias: territórios, cantos, sabores, cheiros, relatos, mandinga, ginga, danças, brincadeiras, orações, musicalidade e corporeidade, transitando de forma fluida entre multilinguagens, para falar da revolução, que em suas narrativas é gerida através das mulheres pretas.

– “Sabe aquela frase? Deus é uma mulher preta! fizeram por causa dela”. (Memórias de Uma Maré Cheia)

As memórias cor de terra se iniciam na visualidade proposta na cenografia, em Memórias de Uma Maré cheia, são apresentados diversos disparadores, que nos convidam a fazer uma viagem guiada pelas falas de nossas matrigestoras. As fotos que personificam as mulheres que inspiram o trabalho, os tons terrosos que tomam conta dos figurinos com pedrarias, o varal com roupas no mesmo tom, folhas no chão, musicalidade, todos esses recursos nos transportam às nossas memórias de quintal, de terreiro, um passado que se torna presente na dramaturgia de Thais Ayomide, que revela os ensinamentos da vivência e da oralidade.

Em Becos de Veias também observamos a utilização de tons terrosos no figurino, a dramaturgia que narra os pés sujo de terra, se contrapondo ao alumínio da bacia, a qual, Camila Rocha relata ter pertencido a sua avó, a utilização da lata d’água e a torneira. A água é também um dos elementos que guiam os dois trabalhos, no desaguar das lágrimas, a terra que se fertiliza, o corpo maré cheia…

Em um dos registros das sábias falas da Makota Valdina, desenvolvido pela Formação Transversal em Saberes Tradicionais da UFMG, filmado em 2018, Makota aponta uma reflexão em harmonia com a escolha estética dos trabalhos,

[…] No fundo a força vem de baixo, que é embaixo que está toda a nossa ancestralidade. A gente vive nesse mundo, que a gente vê, que a gente toca, mas o mundo invisível é como esse mundo imerso, que a gente não vê, que está debaixo da terra, nosso mundo ancestral, dos nossos antepassados. (RETRATO da Mestra Makota Valdina, 2019, 4min53s).

E é com essa força que vem de baixo, que as memórias se tornaram corpo. Aparecida, que é amiga de Oxum, Dona Nanã, Dandara, Aqualtune e Sandra são nomes verbalizados em voz e movimento, nomes de nossas Yabás e de mulheres divinas que lutaram e ainda hoje lutam pela nossa liberdade. Nossas ancestrais ampliam a relação ocidental de maternidade, que em Memórias de Uma Maré Cheia é abordado a partir de uma visão afrocêntrica, segundo Aza Njeri:

[…] A concepção materno-centrada ganha novas perspectivas, não estando necessariamente ligada à gestação físico-uterina, mas, sim, a todo um conjunto de valores e comportamentos de gestar potências e permanência comunitária. (NJERI, 2020)

Viver em comunidade é ter a sua potência gestada não só pelo núcleo familiar, mas também por avós, tias, vizinhas, rezadeiras/raizeiras e todas as demais influências que cercam a nossa formação enquanto indivíduo.

  • “O corpo morro é terra fértil e nos impõe a obrigatoriedade de falar sobre vida, quando a ele formos nos referir”. (Becos de Veias)

Os territórios se tornam um organismo vivo, com desejo de viver, desejo este que não pode ser confundindo com a sobrevivência ao enfrentamento do genocídio da população negra, estar vivo em ambos os trabalhos é partilhar com a comunidade e a ancestralidade, celebrando o que se tem de mais precioso, a existência. O corpo morro se move no ritmo das claves de raiz africana, marcando como a batida de um coração, que bombeia vida para todos os órgãos, os fertilizando, enquanto o corpo cria, pertencente a este grande organismo, influenciado pela rítmica, nos mostra através de seus movimentos a escrevivência de suas memórias.

  • “[…] Falamos que a pior morte é o esquecimento e o desencanto, e que tem morto mais vivo que muito vivo”. (Memórias de Uma Maré Cheia)

A perda da memória também é discutida quando os trabalhos fazem referência ao tempo e à morte, nos fazendo refletir que ninguém morre em memória quando se vive em comunidade, enquanto os ensinamentos que são passados de geração em geração seguem seu ciclo contínuo de transmissão.

Sempre que estivermos repensando a nossa existência e subjetividades em quilombo, assim como as produções aqui citadas, que cumprem com o ensinamento ancestral da escuta e da difusão dos saberes, estaremos combatendo o racismo e fortalecendo as nossas identidades. A memória é como a força que vem da terra e nos dá sustentação para não ceder à violência institucional que nos cerca, pois conhecemos a nossa história e refletimos juntos o que queremos do nosso futuro.

Referências

EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: ALEXANDRE, Marcos Antônio. (Org.). Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 16-21.

NJERI, Aza. Vamos falar sobre Mulherismo Africana?. Alma Preta, 2020. Disponível em: https://www.almapreta.com/editorias/o-quilombo/vamos-falar-sobre-mulherismo- africana. Acesso em: 5 dez. 2020.

RETRATO da Mestra Makota Valdina. Produção: Formação Transversal em Saberes Tradicionais UFMG. Belo Horizonte: Pró-Reitoria de Graduação, 2019. 1 vídeo (1:32:55). Publicado pelo canal: Saberes Tradicionais UFMG. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FAc4CJr4qtM&t=381s. Acesso em: 5 dez. 2020.

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