Keila Tamires Silva de Assis
Instituição: Universidade Federal de Ouro Preto
Graduação: Artes Cênicas / Licenciatura








O corpo ancestral: Mulheres negras em movimento

A urgência de vida, a vontade de viver é força que atravessou as corpas pretas presentes na plataforma do Segunda Black no dia 4 de dezembro de 2020, movimentando estruturas e anunciando fraturas de outros tempos. Corpo Ancestral foi o tema da mostra: se as fraturas nesta terra, feitas pelas mãos pretas ancestrais, preparou o terreiro para nós, percebo que as performances estão a cumprir a mesma função que nossos ancestrais. Ao propor outras narrativas – e, assim, “preparar a terra” para os próximos – a pretitude anuncia artisticamente a sua tomada de poder sobre as narrativas de suas corpas, causando rupturas na lógica colonial. Do terreiro para o palco do palco para a feira e da feira para o mundo, é assim que encaro a noite de “Corpo Ancestral” e agradeço imensamente ao Segunda Black por poder escrever minhas impressões sobre os trabalhos: “Corpa de Mula” de Dani Câmara, “Cor-pó” de Andreza Afro-amazônica e “Ê coreira” de Aeeda Mafalda, e a estas mulheres já deixo também meu sincero agradecimento.

Aeeda levanta-se do chão e inicia o ritual de se preparar para o Tambor de criola, a carioca faz uma homenagem para a Cultura maranhense. Com calma veste cada parte da vestimenta enquanto canta para São Benedito. Andreza faz, em “Cor-pó”, uma jornada pela cidade e pela feira em Manaus, falando calmamente em um megafone para quem tiver que escutar que ela é uma mulher negra em movimento. Após, como um ato de libertação, conta sobre o processo de tomada de posição em sua própria história. Em “Corpa de Mula” Dani nos apresenta um corpo que vive a dualidade de ser mulher e ser bicho, trazendo imagens potentes no seu corpo e questionando “o que podem as corpas pretas?”.

Neste trabalho, Dani Câmera performa o estereótipo hipersexualizado da mulata, numa dualidade grotesca e animalizada de um corpo mula, numa dualidade de seres que toma seu corpo cansado de ser domado, mas que dança e canta do jeito que sempre fez, como movimento, organização, ação e resistência. A mulher preta em diáspora, fruto do sangue que banha nosso chão, é herdeira de uma história que se repete continuamente nesta terra, e quando Dani repete o poema de Mia Couto algumas vezes, e cada vez com mais força, me lembra uma realidade de poder e ação que nossos ancestrais nos deixaram como impulso e missão de futuro, a missão de “abrir brechas no mundo”¹.

É tocante ver o corpo que dança e se transforma em outro animal, a mula hibrida da égua e do jumento que não pode gerar outros: a mula está só, a mulata sexualizada também é só, porque este corpo mula(ta) é a hibridez do desejo do outro. Me suscita sensações a corporeidade da atriz, desse corpo ora mulher ora mula que, com o uso da máscara, ganha potência pela força imagética que possui. Em “Corpo de Mula”, o dançar é de uma brincadeira doce, mas também forte que se assemelha de fato aos orixás gêmeos Ibeji, que carregam essa alegria infantil. O corpo da performer transborda sentimentos como uma criança conhecendo suas capacidades, o corpo dança e seu rosto se junta a esse dançar que está em todos os planos e todos os cantos do palco. Esse corpo desobediente que vive e pulsa, é o mesmo corpo que tem aquela insana vontade de viver feliz mesmo que tenha que fazer da sua vida sua luta forçando a barra de uma sociedade adoecida.

O corpo preto tem anseios urgentes que somente uma corporeidade ancestral e coletiva pode dar conta, a força da natureza orienta o caminho onde rompemos o lacre de bicho e nos fazemos seres em movimento, que tem ânsia de viver, seres que gritam sua existência.

Gritar sem medo, mesmo sendo observada que nem bicho, se fazendo presente vendo e sendo vista. Assim caminha pela feira Andreza, em “Cor-pó”, um corpo de mulher afro-amazônica que denuncia o apagamento de mulheres negras amazonenses, enquanto passeia lentamente pelos corredores da feira e fala incansavelmente, afetando comerciantes que se juntam ao grito e também aqueles que vêem graça na ação. Esse corpo em movimento, como diz Andreza,só é político pois é consciente do poder social que carrega de desconstruir e reconstruir, afetar e ser afetado pelo meio em que está. É interessante observar que os comerciantes presentes parecem esperar que Andreza faça algo além de caminhar com seu vestido laranja e o megafone em mãos e observam até que desaparecem das lentes da câmera, a sonoplastia natural do ambiente da feira também é relevante na performance sendo capaz de nos transportar para o ambiente e nos deixando mais próximas até mesmo de Andreza.

A performance no espaço público tem o poder de desautomatizar o cotidiano e é assim que os performers negros estão se fazendo visíveis para quem de fato precisamos dialogar que é a população, e assim desarticular a lógica do colonialismo suscitando questões no povo, as trocas entre Andreza e quem estava são de muito valor para a pesquisa deste trabalho.

Entendo essa jornada descalça da performer como essa busca incessante do corpo preto contemporâneo de manifestar sua existência e afetar outras corpas pretas, quando Andreza caminha pela rua não a vejo sozinha, sinto a força de nossas ancestrais ao seu lado e em sua voz. Por mais que Andreza esteja falando para todos ouvirem que ela é uma mulher preta em

movimento, me parece mais um chamado para o Aquilombamento e por isso este é o nome deste texto.

O figurino e o cenário de tijolos laranja, tapete laranja, terra laranja e o vestido mostram a beleza desta cor em contraste com a dela, a escolha das cores é em minha opinião outra tessitura da mesma história, um corpo preto que se permite cor. Veio refletindo ao longo deste ano sobre cura, sobre como viver sem o peso da sobrevivência, penso isso também em nível coletivo como tornar a vivência preta saudável, o autoamor é sem dúvida nosso maior ato de revolução, e me senti contemplada ao ver em cima do tapete laranja epistemologias pretas, conhecimento preto, pois a cada dia estou entendendo que a minha forma de cura é o conhecimento do meu povo e do meu ser, ler mulheres negras é proporcionar ao meu cérebro excitação de viver. E é harmônico que está imagem dos livros aconteça enquanto ouvimos a Andreza nos contar a experiência de se conhecer a ponto de não permitir que nunca mais falem por ela e, Dani em “Corpa de Mula” pensa também o reescrever o corpo no mundo, estamos sim precisando assumir a posição de escritoras do futuro.

Pensar em negritude e amor é tatear um espaço novo que ainda é desconhecido, o amor pela nossa cor, pelo nosso ser, pelos nossos é um discurso político recente. Assistir Aeeda em “Ê coreira”, termo esse que diz respeito a essa menina mulher que ao som do couro brinca, dança, emana energia e saúda o tambor de criola é intenso. O ato de se vestir em cena passa pelo lugar da construção dessa Coreira, que com certeza não nasce agora é viva na vida da performer. A delicadeza do toque, o acariciamento da própria pele me transmite amor, o auto- amor nesse processo de vestir-se para o Tambor de Criola, o cuidado de si tão negado a nossas ancestrais se faz presente na performance como um ato revolucionário que, como mãe e artista preta, Aeeda tem a oportunidade de levar para o futuro.

As três performances são fratura no tempo presente, que já vem se abrindo desde os nossos ancestrais e eu como mulher, preta, artista, lésbica e feminista interseccional fico imensamente feliz em escrever sobre o trabalho incrível destas três mulheres pretas, pois acredito que o futuro é preto e não por acaso já diz Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Somos a base de uma pirâmide social que não tem escolha a não ser a mudança, a transformação. Somos um corpo preto coletivo em movimento que tem sede e fome de viver e estamos ocupando todos os espaços, e na arte me motiva ter tantas irmãs e irmãos pretos assumindo o compromisso de abrir brechas no mundo.

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