Elaine Cristina Marques de Oliveira Nascimento
Instituição: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Mestrado em Dança – PPGDan








As três performances da noite giraram em torno da temática “Memória”, trazendo para o público apresentações que partiam de uma experiência de recordação familiar, pessoal e cotidiana.

A performance Tempestuosa Depressagem, de Flávia Souza, dialoga com as questões de saúde mental e traz um recorte racial para a discussão. Por meio da dança, música, interpretação e relatos em vídeo, Flávia apresenta seu processo pessoal e aborda a dificuldade que as pessoas negras encontram em lidar com as questões que englobam os problemas de saúde mental, como se o fato de admitir, e consequentemente, tratar de uma doença mental, fosse uma demonstração de fraqueza.

A performance apresentada por Flávia me remeteu ao texto “Vivendo de Amor”, de bell hooks, quando a escritora aborda, que para muitas pessoas escravizadas, a sobrevivência era determinada pela capacidade que cada um tinha de reprimir as suas emoções, e que dessa forma, o processo de escravização condicionou as pessoas negras a reprimirem seus sentimentos. Como no período de escravidão era comum para os negros escravizados testemunhar cenas de violência das mais diversas, desde estupro, tortura, ou até mesmo a separação de familiares, as pessoas criaram como estratégia de sobrevivência uma suposta “incapacidade” de se sensibilizar com a dor do outro e até mesmo com a sua própria dor.

Passados alguns séculos pós-escravidão, ainda é comum encontrar entre as pessoas de pele preta a dificuldade em lidar com as questões ligadas à saúde mental. Fato é que o negro não é, e nunca foi incapaz de se sensibilizar com a dor, seja a do outro ou a sua própria, mas a falta de humanidade imputada ao negro

escravizado e até hoje à população afro-diaspórica, o faz sentir desconfortável em expor suas fragilidades.

Ademais, as dificuldades enfrentadas no cotidiano pela população negra, faz com que ela sempre coloque em segundo plano os problemas relacionados  à saúde, em especial, à saúde mental. Desemprego, fome, falta de moradia e a violência cotidiana na forma de racismo são alguns dos problemas enfrentados.

A performance tem grande relevância social, já que nos leva a refletir a respeito da forma como a saúde mental da população negra vem sendo tratada. A análise da obra me instigou também a pensar na importância da criação e manutenção de espaços onde a população negra se sinta acolhida, deixando de acreditar que seus processos mentais são pouco importantes, ou que os problemas sociais enfrentados pela incapacidade de o Estado lidar com essas situações sejam mais importantes que seus problemas emocionais.

Na segunda performance da noite, “Dulce – Iyá Mi”, Luiz Monteiro aborda a experiência da perda e da potência matriarcal de sua mãe, e revela que a experiência que teve de ter perdido a mãe em seus braços não foi traumática, mas sim uma experiência de elevação.

Pensando no vínculo ancestral entre mãe e filho é possível compreender o fato de a experiência não ter sido traumática, e mais, trazendo essa experiência para o povo da diáspora africana, encontramos amparo para essa situação nas palavras de Luiz Rufino, que em seu livro “Pedagogia das Encruzilhadas” nos diz que só há morte quando há esquecimento e, que o contrário de vida não é morte, mas sim desencanto. Nesse sentido, Luiz Monteiro traz a potência de sua mãe  como encantamento, que a faz viva, já que ela é por ele lembrada.

Em “Raiva. Cães e vagalumes”, a terceira performance da noite,  Fábio Freitas nos mostra, por intermédio de uma lembrança de infância, as  tensões sociais que afligem muitos de nós: a negritude; a sexualidade; as perdas; a violência contra a população LGBT; e traz o cachorro louco, que espuma, como uma metáfora da sociedade raivosa.

Pensar na raiva que muitas vezes nos acomete por razões diversas, me fez lembrar de Paulo Freire, que em seu livro “Pedagogia da Autonomia” apresenta a

raiva com função pedagógica, quando traz na raiva um papel formador. Contudo, a raiva apresentada por Paulo Freire é diferente da raivosidade, da odiosidade. O Educador traz a raiva que protesta contra as injustiças sociais, contra a exploração  e a violência como forma de mudarmos as situações que nos afligem. Uma forma de canalizar a raivosidade e a odiosidade em ação transformadora.

Fazendo um comparativo com a performance apresentada por Fábio Freitas, e a obra de Paulo Freire, é como se a raiva, quando usada de forma transformadora, permitisse que aqueles que se encontram à margem, que são esquecidos e invisibilizados, pudessem se transformar nos vagalumes que aparecem na performance, pudessem finalmente brilhar, se comunicar.

Os três trabalhos apresentados na noite de sábado, dia 05/12/2020, além de trazer todas essas questões para serem pensadas e discutidas, nos mostra a potência de três artistas negros, que por intermédio de sua arte, apresentam o papel não só formador e reflexivo de um trabalho artístico, mas também o potencial de cura da arte não só para aquele que a consome, mas também para aqueles que a produzem.

Elaine Cristina Marques de Oliveira Nascimento

Licenciada em Dança, professora da rede pública de ensino de Queimados/RJ, aluna do Programa de Pós-graduação em Dança da UFRJ

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2011.

hook, bell. Vivendo de amor. Tradução: Maísa Mendonça. disponível em:

 https://www.geledes.org.br/vivendo-de-amor/amp/. Acesso em 07/12/2020.

RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.

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