Jorruan Silva de Almeida
Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro
Graduação: Interdisciplinar em Linguística Aplicada









AQUILOMBAR-SE: UM MODO/MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA

“Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas, minha alma cheia do desejo de estar na origem do mundo, e eis que me descubro objeto em meio a outros objetos.” (Fanon,2008, p. 103).

O ano de 2020 foi marcado por um período tensionado pelas questões raciais. Observamos várias mortes e protestos durante o ano de George Floyd a execução de mais um homem negro no Carrefour. Não esquecendo também a quantidade de crianças negras atingidas por balas perdidas e tantas outras violências diárias a esses corpos invisíveis socialmente. Há uma evidente falta de respeito pelos corpos negros que deveriam ser tratados com a devida dignidade e humanidade como todos os outros indivíduos, mas não é o que vemos.

Ao observar as performances como encruza, aquilombamento digital e mil litros de preto: A maré está cheia, foi possível observar a materialidade do corpo negro, em seu movimento, em sua corporificação, em sua ressignificação e em como este é um corpo abjeto friccionado por uma necropolítica (Mbembe,2018).

Há um interesse reflexivo sobre essas performances, no entanto assumo a dificuldade do processo de escrita sobre elas. Acredito que toda pessoa negra, passa e enfrenta situações de violência, de rejeição, de racismo em suas mais variadas nuances. O medo nos percorre todos os dias ao andarmos pelas ruas, ao enfrentarmos o dia a dia, ao vermos semelhantes sendo mortos e enterrados sem dignidade. Mil litros de preto, é uma performance instalação visceral que reflete a realidade do corpo negro neste país. Um corpo que é animalizado, desvalorizado, irracionalizado. Esta performance conduz em sua intensa iterabilidade ao encher a piscina com sangue negro, dirigindo-nos a reflexão de uma triste realidade da indiferença, da desvalorização deste corpo que é ferido e ainda hoje sofre com os efeitos colonizadores sobre ele.

Neste processo de apagamento que a colônia instaurou, os saberes negros foram negados num processo de catequização. Logo, a primeira performance nos reconecta a esses saberes, num corpo que ali se encontra evocando sua ancestralidade. Mas é em aquilombamento digital que este autor que vos escreve encontrou a ressignificação. Num ato de reação ao sistema violento que estamos engendrados numa forma de radicalidade e de reinvenção. Vejo as

possibilidades para estes corpos abjetos, renegados, violentados, animalizados na resistência ao sistema. Numa ação que vá além das hashtags #vidasnegrasimportam, mas num ato de transformação.

Numa atitude de revide a musicalidade se complementa ao texto. “Não vou pedir mais licença, vou revidar” é o eco de Aquilombamento Digital que institui a necessidade de romper com esse sistema que insiste em nos assujeitar. Um revide aos espaços urbanos gerenciados para nos matar e nos excluir através de práticas racistas. Uma urbanidade genocida que nos fere. Esse espaço que restitui a todo momento as relações coloniais, indicando qual é o lugar dos negros na estrutura social totalmente racista.

Aquilombamento digital, é sobretudo um manifesto de esperança e de possibilidades. “Esse é um chamado pra aquilombar! Oprimidos no centro vamos revidar! Não dá mole pra racista não!” Essas frases ecoam como possibilidade concreta de que é possível estabelecermos novos modos de operar contra esta sociedade racista. No aquilombamento não nos curvaremos diante das dificuldades, não seremos mais estatísticas. Não somos só obituários! Aquilombar- se é entender que os desafios continuam, enquanto o cotidiano nos massacra numa tentativa de nos derrubar. Entretanto, ao nos aquilombarmos percebemos a possibilidade de reconstrução. Deste modo, é preciso compreender que o aquilombamento é coletivo e não individual. É fortalecer nossos laços. É olhar para o futuro e para as inúmeras possibilidades sem esquecer do nosso passado sofrido. É resgatar nossas histórias, nossa ancestralidade e a nossa diversidade cultural. Tão rica, tão bela.

Aquilombar-se é não permitir que o estado decida quem deve morrer e quem deve viver, pois sabemos que as políticas de morte são destinadas a nós, corpos negros, vulnerabilizados pela dinâmica do racismo estrutural. Logo, aquilombar-se é ter o poder de controlar nossa educação, tomar nossas decisões reivindicando/disputando nosso espaço por direito. É desejar que todos os corpos negros possam andar livremente nos espaços urbanos sem serem confundidos com bandidos. É estabelecer através da comunidade a própria revolução do sistema. É raptar os espaços de poder. É dominar a cena.

Há um desejo pelo fim da nossa degradação e outros males sociais que tanto nos afetam, que nos vulnerabilizam a todo momento. Queremos independência estabelecendo um fortalecimento de nossas potências. É preciso organizar uma guerra contra o sistema de modo a sermos totalmente independentes. A potência estética de aquilombamento digital, me faz ver a necessidade de revolução. Desta maneira, a performance torna-se uma manifesto que nos

convoca a desenvolver e refletir sobre táticas para o povo negro ao redor do globo. Nos fazendo pensar e desenvolver uma reflexão sobre a necessidade de nos organizarmos de forma coletiva, encorajando nossos semelhantes a lutar, a não abaixarem a cabeça diante dos racistas a ir à luta construindo uma base coletiva forte e estruturada. A potência estética desta performance nos conduz a pensar novos valores do sistema no qual estamos engendrados. Novamente entendendo e compreendendo que nossos valores devem ser construídos e baseados em coletividade.

Portanto, não nos permitiremos mais a esta zona do não ser (Fanon,2008). Não nos sujeitaremos mais ao olhar e ao desejo do homem branco que nos marcou, assim como delimitou nossos lugares, nossos espaços numa dinâmica de extermínio dos nossos corpos, dos nossos afetos, das nossas experiências e da nossa história. Aquilombamento digital é sobre reação. É reagir não aceitando mais o negro como estatística de violência, é usar a arte como potência política. É assumir nossa linguagem. É tornarmos visíveis diante dos olhos de quem nos tornou invisíveis. É não permitir mais a necropolitica (Mbembe, 2018) que nos extermina. É ser um corpo reagente no mundo. Um corpo que resiste.

Aquilombar-se é resistir, persistir, é portanto reexistir lutando para não ser mais um objeto nas mãos do sistema.

TEXTO ESCRITO COM BASE NAS PERFORMANCES DO FESTIVAL SEGUNDA BLACK

 Encruza “João Petrolínio compartilha conosco a performance de “Encruza”. O entre as escolhas. O caminho. A desterritorialização do lugar. O lugar. É tempo espiralado, dilatação do passado-presente, futuro. Corpo bebo, oblíquo. Experiência vivida no dinamismo de uma dança preta.” Ficha Técnica Criação e interpretação: João Petronilio Trilha: Wellington Júlio.

 Iluminação: “@Nucleoeus.” Filmagem e edição de Filmagem: Camila Caracool

 Aquilombamento Digital “Aquilombamento Digital”, de Felipe Oládélè, é um chamado para um aquilombamento, para que nos encontremos, para que os nossos corações se conectem e assim hajamos, juntes, pelo plural, pelo diverso, por nós. Como dizia Khalid Muhammad: “Somos um povo de ritmo e espírito. É preciso dar informação com inspiração.” Esse é o

segundo ato do projeto REVIDE. Ficha Técnica Direção e dramaturgia: Felipe Oládélè Atuação: Felipe Oládélè e Abraão Kimberley Operação da trilha: Nádia Bittencourt Operador de câmera: Gerente Produção: Felipe Oládélè

 Mil Litros de Preto: A Maré está cheia Em “Mil Litros de Preto: A Maré Está Cheia”, Lucimélia Romão nos apresenta um corpo. Mudo. Estarrecido. Crivado de dor e sangue. O primeiro tiro fere, o segundo tiro causa dificuldade de respirar e o terceiro mata! Para quê servem os outros tiros? Sete litros. Sete litros de sangue que escoa de cada corpo preto, pobre e ou periférico, enquanto a vida se esvai, a cada 25 minutos, enchendo assim uma piscina de mil litros em cerca de 59 horas. Ficha Técnica Concepção: Lucimélia Romão Performer: Lucimélia Romão Audio: Matheus Correa e Lucimélia Romão Assistente Executiva e Bióloga: Liliane Crislaine

REFERÊNCIAS

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador, EDUFBA, 2008 MBEMBE, Achille. Necropolítica, São Paulo, N-1 Edições 2018

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