Lucimélia Aparecida Romão
Instituição: Universidade Federal de São João Del Rei / Minas Gerais
Graduação: Teatro








Aqueles que ficam – Resistências Poéticas

A quarta edição do Festival Segunda Black, festival carioca que surgiu com o compromisso de impulsionar profissionais das artes negras que acontece anualmente, foi marcada em seu nono e último dia pelo encontro de performances negras, artistas e espectadores que marcaram presença para honrar aqueles que morreram. Com a temática “Aqueles Que Ficam” a noite de terça feira de um ano pandêmico foi dominada por três cenas que evidenciaram a força feminina que ecoava a garra e vitalidade de nossas ancestrais e a coragem e audácia do líder religioso Joãozinho da Goméia ao se colocar nesse Brasil racista e homofóbico.

Do luto à luta, mulheres de “Eu Ainda Continuo Aqui” e “Mães” desvelaram a dor da maternidade interrompida pelo Estado brasileiro genocida. Mães que ao parir seus filhos sem saber que pariam forças e lutas contra esse sistema que elimina os nossos corpos diariamente. Desmantelando o racismo religioso Joãozinho da Goméia

– De filho do tempo a Rei do Candomblé” narra a vida de um dos maiores líderes religiosos que o Brasil já teve, um ser que lutou com vigor para difundir o candomblé fissurando a história hegemônica brasileira.

Em “Eu Ainda Continuo Aqui” ao som do atabaque, quatro mulheres negras se colocam em cena nos apresentando um Brasil atemporal, hostil, amargo e violento para corpos negros. A cena se inicia com sons de tiros e um grito ensurdecedor que atravessa a fronteira palco – plateia. Um grito de mais uma mãe que teve de reconhecer o corpo de seu filho no Instituto Médico Legal (IML), morre ali uma parte de si. A narrativa nos convoca a olhar para os corpos femininos que são exterminados a conta gotas diariamente no Brasil, onde a cada 23 minutos uma mulher negra, uma mãe negra fica órfã de filho.

A cena ao evocar Luisa Mahin, uma personagem histórica ex-escravizada de origem africana, radicada no Brasil, expõe a lógica ancestral da engrenagem racista brasileira onde bebês periféricos já nascem com um alvo nas costas e nos convoca a reagir a essas violências. Um coro de mulheres que gritam pelas suas dores, contra a

barbárie e o terror, são destinadas a amar a luta ao invés de embalar seus filhos que cruelmente foram tirados de seus braços sem que elas tivessem tempo de se despedir.

A travessia que os nossos antepassados fizeram forçadamente pelo Atlântico até hoje perpassa os nossos corpos. A cena “Mães” vem nos inundando como a maré alta e nos afoga nas dores de mulheres que procuram seus filhos desaparecidos. Mulheres que tiveram que lidar com o descaso e a ineficiência das autoridades, além da crescente angústia por não ter nenhuma pista do paradeiro de sua prole. A água salgada do mar que embala os corpos desovados de nossos antepassados dá forças as atrizes em cena.

Quatro mulheres altivas, se apresentam com a força do mar revolto, trajadas de vestidos longos e brancos como uma extensão desse mar que é projetado ao fundo do palco. Vestidos esses que ao longo da apresentação vão se transformando em filhos e outros elementos cênicos que dão significados à narrativa. Com uma corporeidade bem desenhada, rica em movimentos da dança afro, como uma onda que nos conduz para o tempo e espaço da ação teatral, a peça denuncia a má fé institucional, a violência obstetrícia e o desamparo do estado num impulso de lançar mão do leme que comanda as tragédias das vidas afro-brasileiras.

A última cena da noite trouxe a sonoridade afro-brasileira que deu o tom do espetáculo. Duas mulheres tocam ao fundo e Joãozinho puxa um canto de Iansã, a cena abre como um rito encantando o público. Uma luz vermelha invade o palco onde se apresenta esteiras de palha no chão, uma luminária suspensa, uma cadeira, uma gamela e dois vasos de barro compondo o cenário, junto de uma dança, onde a personagem nos guia a um passeio pela vida dessa figura polêmica

A cena documental nos apresenta Joãozinho da Goméia uma personalidade negra e homossexual, um artista amante do carnaval. Um revolucionário religioso, que afrontava os princípios de que homens não podiam “receber” o Orixá em público. Propagou a religião de matriz africana atraindo a atenção da mídia e da alta sociedade brasileira, que se deslocavam de suas cidades e viajavam até a Baixada Fluminense para consultas e orientações com o Babalorixá.

De forma maestral e pedagógica o espetáculo apresenta um João controverso e militante, vanguarda do seu tempo, que não se inibia com sua sexualidade gay na homofóbica Bahia, uma figura brasileira importante, porém ausente em nossos livros de história, que a cena faz emergir.

Aqueles que ficam mesmo que em meio a dor e luto são responsáveis por ecoar as vozes dos que já foram. As cenas apresentadas nono dia do Festival cumpriram essa função de maneira exime. Todos que ficamos traçamos novas rotas de fugas para os que virão, criando fissuras na sociedade dominante. As artes negras apresentam possibilidades de resistência poética onde é possível o povo negro tomar fôlego garantindo suas existências.

Referência:

https://www.segundablack.com.br/consultado em 11/12/2020

https://noticiapreta.com.br/joaozinho-da-gomeia-de-filho-do-tempo-a-rei-do-candomble-volta-em-curta-temporada-no-rio/

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