Verônica Vieira de Mattos
Instituição: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Graduação: Dança







A Segunda Black surge com a iniciativa de garantir que os profissionais das Arte Negras encontrem um espaço para performance e criação. É um lugar com muita representatividade, respeito e troca. Um lugar de celebração preta onde nos unimos aos nossos contribuindo para a valorização e reconhecimento da nossa arte.

A sua 4ª edição é voltada para homenagear os 150 anos de Benjamim de Oliveira e o 30º aniversário do Bando Teatro Olodum. O evento seleciona produções artísticas de todo o país. A roda de conversa teve como objetivo fomentar a criação e o pensamento crítico através do diálogo. Teve como tema

– As Perspectivas para o Fomento e Difusão para Artes Negras em Cena – com a mediação de Paulo Mattos e Sol Miranda, a atividade contou com a presença de quatro profissionais convidados, dentre eles: Hilton Cobra (ex-presidente da Fundação Palmares), Aline Vila Real (Diretora de Artes da Fundação Municipal de Belo Horizonte), Galiana Brasil (Gerente do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural) e Marcos Henrique Rego (Gerente de Cultura do Sesc Departamento Nacional).

E iniciou-se com a provocação deixada por Paulo a respeito da falta de política de fomentos e dificuldades dos artistas com a burocracia. Essa provocação nos levou para vários desdobramentos do tema, levantando questões como racismo, protagonismo negro e privilégio branco. Eles que foram introduzidos nos diálogos como fonte do problema, impedindo que às produções negras alcance a igualdade e/ou a oportunidade de estar nos holofotes. Outro ponto abordado foi a percepção da falta de profissionais negros ocupando espaços de poder e de decisão. Todos concordaram que é preciso olhar para trás, para a origem do problema e buscar uma nova perspectiva voltada para o preparo do profissional enquanto estudante.

De acordo com Amélia Vitória de Souza Conrado (2017, p. 82):

Acreditamos que, através da criação de linhas de pesquisa no nível de pós-graduação, a qual qualifica pesquisadores de alto nível, estes possam assumir orientações de pesquisas e promover a criação de grupos voltados aos estudos das artes cênicas negras. Para tanto, é imprescindível identificarmos, dentre pesquisadores nacionais e internacionais, aqueles que vêm dedicando-se a esse processo de construção, para que, em rede, possam atuar estrategicamente no fomento deste campo, sob diferentes olhares e perspectivas, incluindo-se ao que já vem sendo produzido na área.

Aline Vila Real acredita que os espaços de geração de conhecimento e de criação ocorrem nas universidades e nas comunidades de forma muito potente, nesses lugares é que se iniciam tanto o fazer artístico como a apreciação artística.

Segundo Galiana Brasil: “tudo começa no olho de quem vê”, ou seja, antes de pensar na ação é preciso dar um passo para trás e identificar o público alvo e como vai ser o desdobramento do processo a partir disso. Ainda afirmou que “é necessário um trabalho de campo, precisamos nos relacionar com esses saberes, ter essa troca, a ocupação de pessoas negras nesses espaços de comissão, e seleção é necessária”.

Outro ponto importante foi abordado por Marcos Henrique Rego, complementando a fala de Aline Vila Real e Galiana Brasil, sobre essa curadoria e gestão nas produções artísticas, indicando que precisamos olhar a parte anterior a essa, para entender como podemos dar acesso à mais profissionais negros, porque esses lugares são ocupados predominantemente por brancos que não reconhecem os seus privilégios e que contribuem para o agravamento do apagamento histórico.

A ausência ou a baixa incidência de pessoas negras em espaços de poder não costuma causar incômodo ou surpresa em pessoas brancas. Para desnaturalizar isso, todos devem questionar a ausência de pessoas negras em posições de gerência, autores negros em antologias, pensadores negros na bibliografia de cursos universitários, protagonistas negros no audiovisual. E, para, além disso, é preciso pensar em ações que mudem essa realidade”. (RIBEIRO, 2019. P.16)

Hilton Cobra expõe seu posicionamento que “é dentro do parlamento que ocorre às verdadeiras mudanças”. Informa que o poder não entende a cultura como fonte de economia, que não é significativo para as figuras do governo. Completa a fala de Marcos Henrique Rego, afirmando que pessoas

brancas não entendem a importância da cultura e arte negra e seu papel na sociedade e na vida dos brasileiros.

Em um outro momento, Hilton Cobra apresenta uma iniciativa a partir do Fórum Nacional de Performance Negra, onde a abordaram a ideia em lançar uma campanha chamada Cultura sem Racismo, no qual apresentaria pontos  de cultura, propondo sim as cotas para Arte de matriz africana, propondo o reconhecimento e titularização das comunidades quilombolas.

Por fim, lembrou que o Teatro Negro mesmo sem patrocínio teve êxito. Pretos e pretas estão indo ao teatro por conta da falta de protagonismo negro e representatividade na televisão, como podemos ver nas novelas que insistem em manter os estereótipos da mulher negra como empregada doméstica, o negro favelado, a negra “gostosa” como hiper sexualização da mulher negra e entre outros.

O teatro não somente mostra uma nova narrativa onde podemos nos sentir representados e ser protagonistas das nossas histórias sendo cotidianas ou não, mas também traz com ela uma ressignificação sobre a religião de matriz africana que é tão demonizada na sociedade. O teatro busca a valorização da cultura afro-brasileira, através da arte, educação e entretenimento.

Independente de quaisquer manifestações artísticas e culturais negras, seja elas na área do teatro, dança, literatura ou música, vamos ter que lidar com essas problematizações. Mas, isso não vai impedir que continuemos criando e planejando ações e medidas para ter acesso ao topo dessa pirâmide, afinal se a gente não lutar por esses espaços quem vai?

Acredito que participar da Segunda Black, evento tão necessário e rico, mesmo de maneira singela, foi uma experiência enriquecedora para a minha formação. A Roda de conversa promove grandes reflexões, é um lugar de trocas onde podemos ouvir sobre a experiência e trabalho do outro, aprendemos a ouvir e partilhar. Como artista da área da dança, consegui ter outra perspectiva sobre as produções artísticas, além de exercitar esse olhar de apreciação e crítica de uma atividade que é muito diferente, por exemplo, desta mesma ação em uma mostra.

REFERÊNCIAS:

CONRADO, Amélia Vitória de Souza. Artes cênicas negras no Brasil: Das memórias aos desafios na formação acadêmica. Repertório, Salvador, ano 20, n. 29, p. 68-85, 2017.2. Disponível em: https://portalseer.ufba.br/index.php/revteatro/article/view/25459/15577

RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. 1ª Edição. Editora Companhia das Letras. São Paulo 2019.

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