4 Edição Segunda Black – 2020: Performances 

Interface Crítica – Aza Njeri


A obra de Arte é reflexão e reflexo de seu tempo, sendo uma questionadora da normalidade, tensionadora do status quo e refletora dos dramas individuais e coletivos que brotam das experiências do viver. Seu papel político-poético tem uma dimensão transformadora, que traz alento, fôlego, consciência e colorido ao cinza dos nossos dias. E foi com essa perspectiva do fôlego que aconteceu a quarta edição do Festival Segunda Black. Em formato online e 26 performances apresentadas durante 9 dias.  

Desafiador não só para o Coletivo Segunda Black, mas também para os artistas e grupos selecionados que precisaram pensar suas artes considerando o meio digital e as limitações da pandemia. No âmbito da formação, a mudança para o formato online trouxe novas inspirações de pesquisas, instigando a possibilidade de reinvenção. Nessa perspectiva, o Festival pluralizou olhares,  deslocando a performance de negritude do lugar universalizante, para ampliar e fomentar a criticidade mais sensível à experiência negra. A interface crítica feita após as apresentações por mim, Aza Njeri, e pelo diretor, dramaturgo e crítico Guilherme Diniz, somou-se ao trabalho de criticidade de 11 estudantes de universidades públicas que ficaram responsáveis em produzir sobre cada dia de encontro. 

Lançando mão do movimento de Sankofa – pássaro que volta ao passado para buscar as pedras do ontem -, damos continuidade à arte-educação, promotora da dignidade negra iniciada com os trabalhos extra palco do Teatro Experimental do Negro. Da mesma forma que homenageamos os 150 anos de Benjamim de Oliveira, primeiro palhaço negro do Brasil e os 30 anos do Bando Teatro Olodum, referência no teatro contemporâneo.

Masterclass sobre Memória com Leda Maria Martins

A abertura do Festival Segunda Black ficou por conta da masterclass sobre “Memória” da professora doutora e referência nos estudos de performances negras Leda Maria Martins que foi transmitida ao vivo pelo nosso Facebook.

Em um derramamento de conhecimento e griotagem, permeado por reflexões sobre os homenageados desta edição Benjamim de Oliveira e do Bando Teatro Olodum, Leda Maria tencionou o lugar da arte e do teatro apontando as microfissuras do racismo para dialogar com cânone a partir da agência negra. Importante a sua fala sobre a força estética como promotora de mudança a partir do espectro da negrura, soando como possibilidades para pensarmos o fazer artístico. 

Abrindo os caminhos – 1 dia

A primeira noite do Festival Segunda Black foi dedicada a saudar a ancestralidade, pedindo agô e abrindo os caminhos para as Artes que se seguirão nos nove dias de encontro. Os homenageados desta quarta edição, Benjamim de Oliveira e Bando Teatro Olodum, figuram como referências para a construção das artes negras no Brasil, pois trouxeram novas semióticas tanto para a palhaçaria quanto para o teatro e a performance, tecendo artivismos e disputando narrativas sobre a humanidade negra.

A primeira performance “Não era meia-noite era quase meio-dia” de Jade Zimbra e Castiel Vitorino é uma experiência cênica das imprevisibilidades do corpo-voz. A confluência dos corpos formando um duplo reverberante da tessitura textual e a reivindicação da transgressão imprimem atos políticos-poéticos de “corpos navalhas” negros. Interessante a relação com as bruxas que, apesar de lugar comum, esteticamente ressoou no diálogo com a obra de Maryse Condé “Tituba, a feiticeira negra de Salém”. O figurino branco airoso em diálogo com o jogo de luzes vermelhas agregou em estética. Ficou bonito.  

A segunda performance foi “Mimo Bambu em o catador de risos” do Grupo Caras Pintadas, cujo apelo político do riso, expôs a falta de autocuidado dos transeuntes em relação ao uso da máscara e aglomerações em meio a pandemia. A palhaçaria trouxe poder às arestas cortantes da crítica que já se instaura no título da performance que referencia os catadores de recicláveis. Interessante as reações das pessoas que, majoritariamente encabuladas, colocam as máscaras e se afastam camufladas em sorrisos amarelos. 

Para fechar a noite, “Alicerce” de Hiago Ruan da Silva discorreu sobre os caminhos abertos para Exú e as possibilidades de estradas, saudando a entidade das artes performáticas e patrona do Festival Segunda Black. Mais uma vez o corpo é central e a incorporação da linguagem audiovisual trouxe dinâmica principalmente nas cenas externas. A água como elemento primordial da Vida deu uma dimensão filosófica para pensar a comunicação. A escolha por um figurino que quebrou com a perspectiva do preto e vermelho comum nas representações sobre a entidade é um ponto alto. 

Poesia híbrida em cena – 2 dia

A segunda noite do Festival Segunda Black foi dedicada à poesia e aos hibridismos. A linguagem lírica ganhou camadas de subjetividade e construção do discurso sobre o que é Ser negro é a tônica das propostas para o dia.

“Pretofagia – o plot” de Yhuri Cruz questiona o lugar do corpo negro e sua resistência. A máscara abre questões acerca das performances de existência que lançamos mão para sobreviver. Impossível não atrelar à obra “Peles negras, máscaras brancas” de Frantz Fanon ao mesmo tempo em que referencia a tradição cultural africana e suas máscaras ritualísticas. Indagações como “O que é um corpo negro?” ressoam em diálogo a um imaginário comum de performance de negritude que se quer questionar. Qual é o meu papel nisso tudo? Saímos da experiência pensando sobre nossas responsabilidades individuais e coletivas. 

A sarcástica “O preto bonito está cagando para você, Madame!” de Médrick Varieux expõe a relação da negritude com a construção ocidental. As reflexões sobre o devir negro suscitadas e os incomodos gerados ampliaram as camadas do encenado. Se quer desestabilizar os lugares estanques e universalizantes destinados aos corpos negros para em movimento chegar em uma narrativa pluriversal. O jogo de câmera e edição também fizeram a diferença no resultado final. A acidez do discurso proferida com sotaque francês do ator deu ainda mais charme à performance.  

Carolina Aza fechou a noite com “Sobre pesos e balanças”. O texto oscilante entre o lírico e dramático aponta para o entre-lugar do ser negro na dinâmica da necropolítica. Propondo-se a despir-se do olhar ocidental, evidencia as fraturas existenciais dessa experiência num processo curativo pela palavra. O trabalho de figurino e arte complementam o recorte estético. E a discussão de gênero encorpa o narrado trazendo a experiência subjetiva de ser mulher negra.

Mulher Negra – 3 dia

Mulheres negras na dramaturgia ainda lutam para se distanciar das performances limitantes que a indústria cultural impõe a esses corpos. Questionando essa semiótica, o terceiro dia do Festival Segunda Black se debruça sobre os dramas femininos, evidenciando o seu lugar de resistência, permanência e continuidade.

“Amor Preta” de Adrielle Vieira parte da necessidade de falar de Amor em contraponto ao desamor imposto pelas estruturas racistas e genocidas nas quais pessoas negras estão inseridas. O diálogo com a relevante obra “Tornar-se negro” de Neuza Santos revela a discussão subjetiva da performance. A metáfora do bambuzal que enverga, mas não quebra, reflete as estratégias de sobrevivência de mulheres negras apesar dos ventos da opressão. 

O musical “Super Maria” do Som de Preta parte da metáfora da Maria, a grande mãe santificada, para questionar o lugar feminino, ao mesmo tempo que rompe o imaginário comum para pintar o pesadelo de toda mãe negra: a violência genocida sobre os seus filhos. O matriarcado africano ancestral, sobretudo na performance da Iabá Iansã, se apresenta como base de resistência dessas mulheres que apesar da fratura existencial da perda de seus filhos, continuam de pé.

Mulher negra é como o Sol. Com essa potência de autoestima que a performance de Fabíola Nansurê, “Rosas negras”, fecha o dia. Partindo da dororidade, passeia pelos afetos que atravessam corpos femininos negros questionando os padrões as negociações de humanidade. O cabelo, seus desdobramentos e o empoderamento que ele traz é uma tônica performativa que deságua na discussão sobre o autoconhecimento. Mulheres que passaram pela transição capilar vão se identificar com os dilemas propostos em cena. 

Meu território, o lugar de onde falo – 4 dia

O aquilombamento é uma prática de resistência negra na América. Diante da desumanização vivida pelo sequestro e escravidão de nossos ancestrais, aquilombar-se tornou-se um caminho para sobreviver e fincar raízes confluentes com as cosmologias dos povos originários da América. O corpo é atravessado pelas experiências do território, grafando a cartografia da memória no seu próprio movimento de existir.

Território-memória-corpo tornam-se mote da performance de Thaís Ayomide, “Memórias de uma maré cheia”. O título localiza o território: mar e favela e as experiências que brotam dali. Partindo do matriarcado, mulheres compartilham suas escrevivências diante do emparedamento do racismo, violências de gênero e genocídio. 

Os becos da existência são pauta da performance “Becos de veia” de Camila Rocha. Em um diálogo com Conceição Evaristo e a obra “Becos da Memória”, vemos o pulsar de um corpo-território intenso e poético. O corpo, morada do ser, cresce em cena a cada gesto imponente que marca não apenas os emparedamentos, mas sobretudo a ancestralidade e a memória. Há, ainda, uma reflexão potente sobre a transitoriedade do corpo enquanto um território que a alma pegou emprestado de Nanã, mas que devolverá ao fim de sua jornada.

Corpo ancestral – 5 dia

A corporeidade é um valor afro-civilizatório que, segundo a intelectual e pedagoga Azoilda Loretto Trindade, compõe as heranças africanas de origem bantu legadas à população afro-brasileira. Juntamente com a musicalidade, a oralidade, a ancestralidade e a força vital servem de massa artística para as produções negras. Diferentemente da construção ocidental, as afroperspectivas têm no corpo a matriz para a experiência do ser. 

Desta forma, a performance “Corpa de mula” de Dani Câmara trata das experiências de subalternidade que atravessam o corpo negro em diálogo com a hipersexualização das mulatas, cuja palavra deriva historicamente de mula.  A música – “língua materna de Deus” é reivindicada como valor civilizatório e a escolha pelo tom ocre no corpo me lembrou as mulheres himbas na Namíbia e Angola.

Corpo, música e ancestralidade conduzem a performance “Ê, coreira” de Aedda Mafalda. A partir do Tambor de Crioula evidencia a tradição ancestral e os fundamentos que envolvem o vestir-se para a roda. A roupa funciona como metáfora das camadas ancestrais invocadas naqueles movimentos. Há ainda um diálogo com o jongo, numa confluência performativa de danças bantus. 

E em “Cor pó” de Andreza Afro Amazônica, uma metáfora dissonante se estabelece já no título, trazendo o incômodo de uma mulher negra caminhando pelo mercado popular reivindicando a sua identidade afro-amazônica. Interessante observar a interação com os transeuntes e o diálogo com o conceito de Amefricanidade de Lélia Gonzalez. A frase “eu tenho urgência” funcionou como um grito de inegociabilidade humana que abre frente para reflexões sobre o lugar dos corpos afro-amazônicos nas disputas de narrativas contra-hegemônicas. 

Memórias –  6 dia

A memória é um valor afro-civilizatório em que o passado é corporizado no presente. Lembrar e relembrar relaciona-se diretamente ao ato de permanecer. E é por meio da memória que nos movimentamos em Sankofa para buscar as pedras do antigamente. Corpo-memória é o que suleia as performances da noite. 

Em Tempestuosa Depressagem de Flávia Souza, discute-se com seriedade as dificuldades que pessoas negras têm de lidar com a saúde mental. A memória é diluída em processos esquizofrênicos, depressivos e traumáticos. O humor é introduzido como válvula de escape diante das violências psíquicas do racismo. A estética escolhida trouxe o sentido do emparedamento e sufocamento expresso no texto. Não tem como sair dessa experiência sem refletirmos o quanto de atenção damos à saúde de nossas cabeças.

Em um outro percurso memorialístico, Luiz Monteiro apresenta a homenagem à sua falecida mãe em “Dulce – Iya Mi” em uma espécie de axexê cênico. A ancestralidade pulsa em toda a performance que dialoga com a Matripotência da filósofa nigeriana Oyeronke Oyewumi. Lírica, ancestral e emocionante, vemos em cena a experiência espiritual do laço inquebrantável entre mãe e filho. 

O Teatro de Anônimo fechou a noite com o impactante “Raiva, cães e vagalumes”. A partir da memória traumática da infância, reflete-se sobre a subjetividade humana e as (in)adequações da vida. A estética metálica que passeia do punk e gótico ao drag reforça a uma memória de violência, afronta e raiva dialogante com toda a proposta. A metáfora da “boca banguela” trabalha o semiótico e traz um incômodo bacana. Saí pensando em como temos que ser responsáveis com as histórias que contamos às crianças, pois as palavras podem marcar irreversivelmente as subjetividades. 

Corpo Ancestral – 7 dia 

A descolonização do corpo como forma de rompimento das violências do racismo é o fio condutor para a sétima noite de festival. Novamente o corpo é refletido a partir da ótica da ancestralidade, principalmente pelo resgate de corpos desumanizados. Enquanto morada do Ser, o corpo precisa ser livre para experimentar a radicalidade da existência. 

A primeira performance “Água Mole, ferradura, tanto afeto, cuida e cura” do Afroxirê, traz a dimensão do corpo ancestral com a dança dos orixá. O ferro e a água conduzem a performance em referência a Ogum e Oxum, respectivamente. Os elementos metaforizam também o povo negro com sua resistência férrea e sua maleabilidade líquida. 

Já “Meu corpo cabeça” de Tati Villela dialoga com o cânone imagético da cabeça em uma bandeja, que desde tempos bíblicos paira no imaginário comum da vingança. Há, ainda, a referência ao Ori, orixá da nossa cabeça, como constante. O movimento corporal metaforiza as agonias e sufocamentos, ganhando uma camada significativa com o ato de vestir-se. O texto duro tenciona a lógica genocida e expõe a subjetividade de quem se encontra emparedado. 

Fechando a noite, a Cia Clanm apresentou a bela performance “Manifesto Elekô” sobre a orixá Obá e a sociedade Elekô. O culto à ancestralidade é corporizado nos movimentos vigorosos metaforizando a força e precisão das mulheres negras ao lidar com as adversidades da vida, do racismo e do patriarcado, além de trazer o protagonismo desta Iabá pouco mencionada nas artes. 

Minas – 8 dia

A filosofia Ubuntu diz que “eu sou porque nós somos”, convocando-nos a nos perceber em coletivo. Assim, o penúltimo dia do festival reverencia seus espelhos: Segunda Preta/BH, Segunda Crespa/SP, além do próprio Bando Teatro Olodum, cujos 30 anos homenageamos nesta quarta edição. Portanto, o suleamento de hoje chama-nos a voltar nossos olhos à cena de Minas Gerais e nos nutrirmos dos artivismo que brota de lá.

“Encruza” de João Petronílio evoca Exú e as potencialidades da encruzilhada. Entre Umbanda e Candomblé, a rua é o espaço do trânsito e confluências. Ancestralidade é o fio condutor, seja Exú catiço, seja Exú orixá, a performance traz a dimensão das disputas e conflitos da rua. A sabedoria de terreiro em interlúdio agregou liricidade à performance inserindo mais uma camada imagética. 

A experimentação “Aquilombamento digital” da Companhia negra de teatro trouxe um discurso político explícito já na estética que referencia os Panteras Negras conjugando com contas de orixá. O musical com texto pan-africanista costurado por frases de Marcus Garvey é ácido e convoca ao aquilombamento organizado enquanto luta antigenocida.  

 O tom político permance com a impactante performance “Mil litros de preto: a maré está cheia” de Lucimélia Romão sobre o genocídio negro. Aos poucos vemos uma piscina de sangue se encher balde a balde. Semioticamente violenta, a cena incomoda porque esfrega em nossas caras a desumanização negra.

Roda de conversa – Perspectivas para o fomento e difusão para as artes negras da cena – 8 dia

Visando fomentar a discussão acerca das formas de permanência e continuidade das artes e artistas negros da cena e entendendo o compromisso de garantir que centenas de profissionais da arte preta encontrem um espaço para performances e estudo, aconteceu no penúltimo dia de Festival Segunda Black a roda de conversa sobre as “Perspectivas para o fomento e difusão para as artes negras da cena”com Aline Vila Real, diretora de Artes da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte; Galiana Brasil, gestora do núcleo de artes cênicas do Itaú Cultural;  Marcos Henrique Rego, gerente de cultura do Departamento Nacional do Sesc; e mediação de Hilton Cobra. A discussão foi pedagógica no sentido de criticar o cenário das artes negras no país, apontando caminhos e estratégias possíveis dentro do contexto atual.

Aqueles que ficam – 9 dia

Na noite em que se completaram mil dias do assassinato de Marielle Franco, o Festival se abre com a fala lúcida de sua irmã Anielle Franco que nos lembrou a vulnerabilidade de corpos negros no sitema necropolítico brasileiro e a importância do aquilombamento.

O mote suleador da última noite aponta para o legado que podemos deixar aos que virão. A filosofia Sankofa – pássaro que resgata as pedras do antigamente – nos questiona sobre o afrofuturo, convocando-nos à responsabilidade de construí-lo. 

Diante do genocídio do povo negro, “Eu ainda continuo aqui”de Cyda Moreno, Márcia Santos, Márcia do Valle e Taís Alves retrata a dor dos que ficam e os dilaceramentos causados por ter que conviver com o traumas da violência. Em tom documental, sentimos o peso da ausência e rapidamente lembramos que em 2020 tivemos mais de 20 crianças assassinadas no Rio de Janeiro. Ouvir os depoimentos das mães é dramático.

Vozes femininas e o genocídio retormam como mote em “Mães” de Aline Borges, Mery Delmond, Sarto Rodrigues e Valéria Monã. Utilizando-se da metáfora das Iabás, como grandes mães de fortaleza, vão sendo expostas as violências que atravessam corpos negros. A água e a referência explícita a Yemonjá, senhora das cabeças, apontou para o impacto nas subjetividades. 

A noite e a quarta edição do festival Segunda Black se encerra com uma homenagem ao ancestral Tata Londirá na performance “Joãozinho da Goméia – de filho de tempo a rei do candomblé” da Karmacírculus. No monólogo percorremos a sua trajetória e a sua criatividade ousada que revolucionou o candomblé com  confluências de diferentes matrizes e também do Carnaval. Uma bonita maneira de saudar um ancestral tão inspirador para as artes performáticas negras. 

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