Marjory Leonardo Lopes da Silva
Instituição: UNIRIO
Graduação: Bacharelado em Estética e Teoria do Teatro







Por quê ou Pra quê escrever uma crítica?

Essa é a pergunta que sempre me faço após assistir a um espetáculo. Não só após assistir, mas em todo o processo de observar o que se é visto – percebido – com os olhos, os ouvidos, o tato – e, quando possível, com o coração. 

É válido lembrar que o mais importante na crítica não é a opinião de quem a escreve. Pensar uma obra de arte é como desmontar uma cebola, e assim observar suas camadas, suas texturas. Enxergando o que compõe geralmente é possível entrar em diálogo com a proposta estética e epistêmica de seus artistas criadores. Pode acontecer de, algumas vezes, as partes não conversarem tão bem entre si, dificultando a transmissão do que o artista contemplava em sua imaginação. Em relação a isso, é nítido que não controlamos como um trabalho será recepcionado, mas existem algumas técnicas – ou modos de operar – que se utilizados de uma boa maneira podem nos ajudar a encontrar os caminhos que melhor expressam nossos anseios. Por essa razão a crítica se faz importante, no sentido de poder sinalizar e indicar aspectos que positivem a criação artística – quase como se aproximássemos um espelho à obra. A auto-imagem de Oxum mais ‘ver-se e outrar-se’ é o que constitui – ou pelo menos deveria ser, em minhas crenças – o papel da crítica de arte. 

Observemos, porém que a função crítica não cabe apenas às pessoas deste nicho profissional. Enquanto artistas criadores com pensamentos políticos devemos sempre assistir criticamente às obras de nossos colegas, tendo o cuidado e a liberdade para dizer com consistência sobre aspectos que influíam nas avaliações finais.
E a você quem fala, a você quem ouve: cuidado e atenção na hora de dar e ouvir ideias. É importante utilizar filtros e capturar as dicas que cabem a cada processo em suas especificidades.

Dito isto, hoje faço aqui como no Adinkra denominado Sankofa: volto ao passado para buscar como ressignificar o presente e afetar o futuro de forma positiva. Pensar o que vi, olhar para o tempo atual e modificar o futuro com algumas dicas que podem ser aderidas sim ou não – é  assim que vou escrever essas três críticas que, de antemão, agradeço a confiança em me ofertar o espaço para escrever algumas palavras sobre suas “crias” feitas e nascidas com amor de vocês. É sempre uma grande responsabilidade mostrar caminhos e acredito que Exú irá me ajudar. Laroyê Esù!

Antes do início, observo a ausência de ficha técnica na programação do festival. Como saber de quem e com quem estou conversando? Creio que de forma mais explícita seria bom encontrar o nome da equipe que concebeu as peças em algum espaço no site.

Fora isso, inicio assistindo a curta performance de dança ÁGUA MOLE, FERRADURA, TANTO AFETO CUIDA CURA de Afroxirê. Foi quando me transportei para diversos momentos da história da vida, desde o nascimento às batalhas enfrentadas diariamente habitando um corpo negro. E observar essas duas corpas tão ímpares em cena, mais do que trazer aspectos e energias da mitologia dos orixás, me faz pensar sobre o fato de outrar-se – tornar-se outra e  a outra. Deslocar-se, pensar na pluriversalidade das formas, dos modos de se fazer dança ou teatro e em como nossas ações ressoam no universo foi o que mais me tocou ao experenciar este trabalho – que me pareceu um tanto maduro.

Uma dança contada através de imagens remetendo a um Itàn dos orixás Ogum e Oxum.
Esse mesmo Itàn foi recontado em um livro da autora Kiusam de Oliveira, intitulado ‘OMO-OBA histórias de princesas’ e ver dançada uma história lida e contada foi realmente muito emocionante. Não só pelo fato de retornar ao corpo ancestral e aos ciclos de auto-cuidado e cura como também pelo modo como isso foi feito. 

Simples, porém sem ser simplória, a encenação foi estabelecida de modo que seus elementos se integravam e se harmonizavam. O cenário mínimo de folhas acompanhado da iluminação e da indumentária também nada espalhafatosa deram as mãos aos movimentos de vogue e capoeira que desembrulharam numa dança dos orixás mais contemporânea – gestos produzindo deslocamentos temporais. Tudo isso em diálogo com os músicos que maravilhosamente compunham sua percussão com um som de base mais metálico e mecânico – som esse que me remeteu a um nome bem conhecido no meio da dança contemporânea, Ryoji Ikeda. 

Mas agora retomo a questão da maturidade cênica em relação às escolhas: o mínimo sendo o máximo. Pois vi corpos presentes em cena desfrutando das ações, desde os gestos mais amplos ao mínimo olhar lançado ao público – ou, dessa vez, à câmera.
‘Que pode haver de maior ou menor do que um toque?’, já dizia Walt Withman.
A Cia Afroxirê acertou também no que diz respeito ao uso das técnicas e tecnologias disponíveis: por que não aproveitar o enquadramento da câmera fixa para brincar? Vistos de frente com alguns closes, além das saídas e entradas no enquadramento, transformaram a experiência de viver esse momento com a mediação de um computador.

Quanto aos corpos em cena, eles próprios se dizem muito bem e fortemente. Mas seus olhares… Mostram maturidade de estar em cena: determinação, confiança, responsabilidade e amor. Tudo aquilo que o título nos diz. E acredito mesmo que uma boa arte se faça só, sem explicações ademais àquilo que vemos e sentimos. Afinal de contas, dança-se sozinho? Existe teatro sem espectador? Existe qualquer outra arte sem recepção? Sempre estamos em diálogo: o que vemos com o que nos olha. E é precioso refletir sempre sobre essa possibilidade de troca como a completude (ou transbordamento) da cena e do trabalho artístico.

Pensando nisso, trago alguns aspectos de MANIFESTO ELEKO I de Cia Clanm, que em relação ao corpo ancestral, auto-cuidado e circularidade, conversa muito bem com o espetáculo acima, mesmo que de modo completamente diverso. Trata-se de um balé (das yabás) – um corpo de baile. Só essa característica mobiliza outro olhar para a primeira parte dessa peça. Me trouxe ares de Mercedes Baptista com a mitologia e a dança africana dos nossos queridos Orixás… Que delícia remeter a esta mestra. Ela que tanto nos ensinou – e ainda hoje nos ensina – sobre colaboração e coletividade, sobre preservação e culto da ancestralidade através da dança, sobre força feminina preta. 

Com um importante e poderoso toque da teatralidade tão presente nas danças enraizadas na cultura popular negra brasileira e africana, o espetáculo se mostra de uma beleza digna de rainha Obá. Em seu enredo traz um mito – uma história local que sempre nos ensina uma lição – de Obá, uma deusa africana, Rainha, que cuida da Terra, das pessoas, dos animais e das energias num tempo antigo, muito antes dos homens tomarem o poder para si.
Muito bem coreografado e dirigido, @s dançarin@s são excelentes e a dança desenrola o enredo sem dificuldades: é possível ser capturado pela história, ainda mais quando se tem conhecimentos em cultura negra e africana. Entretanto, é uma boa oportunidade para conhecer um pouco mais sobre nosso passado – e também uma chance de transformar o presente e melhorar o futuro. Sim, porque quando assumimos a responsabilidade de ir atrás do que não sabemos e aprender estamos alegrando todos aqueles que lutaram outrora pelos nossos direitos atuais.
Além de tudo, a peça combina o acompanhamento da banda de percussão com a cantoria mágica do artista que contracena com as dançarinas brilhantemente. Dessa maneira pude me transportar por alguns segundos para o chão, sentada em roda ao redor do mais velho griot de alguma comunidade que conta uma antiga história sobre uma guerreira. Essa sensação me trouxe a mente uma cena do filme ‘Keita! O Legado do Griot’ de Dani Kouyate (disponível no Youtube).

Por fim, sinto certa satisfação de ver encenada uma história que toca o tema do mulherismo afrikano. Diferente da vertente feminista que acredita que mulheres devam ter seus direitos igualados aos dos homens, no mulherismo não se deseja superar o diferente, mas aproximar a todos dos seus direitos plenos para melhor se viver e compartilhar a vida.
Talvez a força das mulheres no comando dos poderes evitasse muitas guerras; talvez possuíssemos um imaginário repleto de referências de relações mais amorosas – cito a bell hooks no texto também disponível na internet em pdf e traduzido para o português ‘Amor como prática de liberdade’.
Mas não falo desse amor esquerda-festiva-gratiluz, não. Falo do amor que faz com que tenhamos coragem e força pra segurar as mãos dos nossos e nos reerguer a cada vez que for necessário; digo do amor que me faz ter um olhar mais cuidadoso com quem está dormindo nas calçadas, vivendo nas ruas ou simplesmente trabalhando num emprego onde não está feliz. Um amor diferente, que preze pelo respeito e pelo bem estar de tod@s. UBUNTU.

E esse grande sentimento poderoso – o amor – talvez seja o tema central da peça da Tati Villela MEU CORPO CABEÇA, mostrado em sua mais diversa face – quando em sua falta: o genocídio. Particularmente este é um tema delicado e que me sensibiliza bastante, pois para tocar na ferida do povo preto é preciso atenção.

Ver um corpo no solo se contorcendo em possível sofrimento por mais ou menos dez minutos me distraiu – ou me fez perceber – alguns aspectos para a cena desta peça. Trata-se de pontos específicos: primeiro, o fato de a artista vestir uma calcinha preta e apenas isso. Isso me fez pensar sobre a importância ou não da nudez para esta performance. Logo depois ela veste um paletó, o que já implica numa nova imagem produzida por seu corpo. 

Em semiótica – a ciência que estuda os signos ou símbolos e seus processos de significação – vemos que cada signo ou cada item, cada imagem colocada em cena, pode significar algo, ou seja, ela comunica alguma coisa. Então, sempre se faz importante tentar “ver a cena de fora”. Como fazer isso? Geralmente eu sugiro gravar-se em vídeo, mas não precisa ser esse o caminho a se seguir. Apenas refletir sobre “o que vemos e o que nos olha” já é algo de grande sabedoria para a criação artística. Afinal de contas, o que queremos comunicar e o que comunicamos quando optamos por apresentar um corpo quase nu, ao invés de um corpo nu? O que queremos comunicar e o que comunicamos quando usamos uma projeção ao invés de uma iluminação? Como queremos ser vistos neste ou naquele trabalho? Tudo isso intervirá na experiência de quem assiste. 

De modo geral, penso que a segunda parte da peça surge como algo novo, diferente e talvez descolado da primeira. Realmente, uma mesa farta de banquete com uma cabeça é surpreendente! Acredito ter sido um dos pontos altos da apresentação. A própria ideia do deslocamento da cabeça que ficaria fixada no topo do corpo para uma bandeja é algo brilhante porque nos traz à ideia: como manter-se sã e são na Babilônia? Como ser uma mulher preta na sociedade? Como o que vivemos nos atravessa e nos molda/forma?

Acredito na potência da imagem da cabeça em deslocamento. Talvez investir tempo em certos elementos, em determinados gestos e momentos pudesse exacerbar a potência que há em toda a cena.
Como é possível estender a potência em cena? A potência das formas, dos gestos, dos sons, das imagens… Como ser menos para ser o máximo? Como usar a exaustão a nosso favor?
Tudo são escolhas e nosso processo sempre demonstra os caminhos que optamos por trilhar.

Algumas coisas podem ajudar a criar esse ‘clima favorável’, tais como pensar a encenação: o cenário, a indumentária, a disposição dos objetos; a luz, o ponto de vista de quem vê, o que é visto; a trilha sonora, os textos, a coreografia. Pensar em QUEM, ONDE, O QUE, QUANDO, POR QUE também fornece possibilidades para vislumbrar algum caminho para a encenação – mas não quero dizer que seja o correto ou o único, apenas uma dentre tantas possibilidades. Afinal, hoje podemos tudo! E sendo assim, poder-não se torna um grande desafio e uma impressionante qualidade.

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